domingo, 10 de março de 2013

O HIPERCONSUMO VEIO PARA FICAR, DIZ FILÓSOFO FRANCÊS

Gilles Lepovetsky, filósofo francês (Foto: Divulgação/Marie Claire)
Escassez de recursos naturais. Crise no setor imobiliário americano. Aquecimento global. Tudo isso existe e está aí há anos, desafiando o estilo de vida dos países desenvolvidos e emergentes. Porém, nenhuma força será capaz de frear a escalada do consumo mundial. E, ao contrário do que dizem os críticos do capitalismo e os ambientalistas, isso não irá envenenar o nosso futuro. Este é foi o principal recado do filósofo francês Gilles Lepovetsky, que falou a uma plateia brasileira nesta quarta-feira, na sede da Editora Globo, em São Paulo (SP).


Convidado pela revista Marie Claire, o filósofo expôs os pilares da sociedade do hiperconsumo, uma das bases da teoria da hipermodernidade, a fonte do seu prestígio na academia e nas empresas, principalmente as da moda. Entre seus livros estão O Império do efêmero e A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade do hiperconsumo, que já foram traduzidos em 18 idiomas e distribuídos em mais de 80 países.
Em linhas gerais, Lipovetski diz que os nossos hábitos de consumo vêm mudando radicalmente nas últimas décadas. Nos tornamos individualistas (nas refeições, diante da tevê, na relação com a moda) e potencializamos as experiências por meio da tecnologia. “No hiperconsumo, não há limite de espaço e tempo. É possível comprar em qualquer hora e lugar”, diz Lipovetsky.
O filósofo trabalha com a premissa segundo a qual, onde as pessoas têm o gostinho de comprar livremente, não tem volta. “Pergunte aos chineses se eles aceitam diminuir o consumo”, afirma. Mas se está tudo dominado, o que fazer? Como equilibrar consumo galopante diante de tantos desafios? Para Lipovetsky, a saída não virá da demonização do consumo, mas sim da capacidade do ser humano para dar respostas inteligentes a problemas complexos. “Há limites para os recursos, mas a invenção humana já fez o possível e o impossível. Se alguém falasse que iria à Lua na Idade Média, seria tachado de louco”, disse.
Após afirmar que o aumento do consumo é inevitável, Lipovetsky trouxe um contraponto. Na visão de mundo do filósofo, ainda que o consumo esteja presente em todas as esferas da vida, é possível – mais que isso, desejável -- que ele não seja um ideal de vida. “Cabe aos governos e aos pais dar educação sem diabolizar o consumo, sem moralizar a questão com idéias simples sobre o bem e o mal”, afirmou. Ele próprio disse ser adepto do que chamou de “simplicidade voluntária”, o que na prática quer dizer uma vida onde o consumo deve ficar na última gaveta das nossas vontades. “Desde Pascal sabemos que o consumo era uma maneira de combater a angústia. Mas quando temos paixões, o poder do consumo passa a ser muito inferior.”
Fonte: Revista Época Negócios