domingo, 23 de junho de 2013

Entendendo os Protestos no Brasil: Oito Interpretações

Multidão protesta nas ruas do Brasil - Foto: Revista Veja


Por André Luiz Sousa Coelho


Conforme prometido, eis a postagem para tentarmos entender a onda de protestos no Brasil em conexão com a cadeia internacional de protestos e manifestos semelhantes. Ontem disse que tentaria ir além das análises da imprensa, mas a imprensa tem sido tão superficial na cobertura do fenômeno que elevar-se um nível acima do que ela vem fazendo não chega a ser um carimbo de legitimidade. Vou tentar escrever esta postagem para ser entendida por qualquer pessoa inteligente e bem informada, independentemente do conhecimento prévio que tenha dos autores e teorias citadas ao longo do texto. Para isto, partirei dos fatos conhecidos e tentarei, por degraus sucessivos, chegar cada vez mais longe. Tomarei como degraus as formas que se sucederam de compreender o fenômeno. Vamos ver se me saio bem nesta tarefa ambiciosa.

Como se sabe, os protestos no Brasil tiveram início na cidade de São Paulo em reação, em primeiro lugar, ao aumento da tarifa de ônibus municipal do preço anterior de R$3,00 para o novo preço de R$3,20. O fato de milhares de pessoas terem se reunido para protestarem contra um aumento de passagem considerado pequeno, ou seja, de R$0,20, pareceu desproporcional a boa parte da classe média brasileira e, juntando-se com preconceitos longamente arraigados contra protestos e passeatas liderados por jovens estudantes, despertou a primeira perplexidade sobre o movimento e a primeira forma equivocada de compreendê-lo:

PRIMEIRA INTERPRETAÇÃO: Trata-se de um fenômeno isolado de protestos de jovens desocupados da classe média paulistana que, movidos por ideologias difusas de esquerda e pelo afã de imitar movimentos legítimos de reivindicação, tomaram uma causa qualquer (um aumento de apenas R$0,20 na tarifa do ônibus que muitos deles nem precisam tomar) como substituto de sua falta de causas reais para protestarem e fizeram dela motivo de luta e de enfrentamento com as autoridades.

Tratava-se, como é evidente, de uma interpretação reacionária. Na linguagem política, assinala-se a certa pessoa o rótulo de ter pensamento ou temperamento “reacionário” (os esquerdistas inventaram inclusive o apelido “reaça” para estas pessoas), em oposição a progressista ou revolucionário, quando esta pessoa não apenas é a favor do status quo, mas também se incomoda com manifestações políticas (que interpreta como barulho, desordem e baderna) e encara de modo cético e cínico tentativas de interferir no cenário político, tirando sarro dos participantes e de seus “sonhos de mudar o mundo”. Este pensamento e temperamento reacionário, que em geral reflete satisfação ou acomodação ao status quo e traduz sentimentos de desinteresse e impotência política, dominou a primeira onda de críticas aos protestos e despertou nos manifestantes o desejo de se explicarem e se legitimarem perante o restante da população, conclamando-a a apoiar e participar do movimento que não era “por centavos, e sim por direitos”.

Para fazer esta legitimação social do movimento, participantes e simpatizantes passaram a tentar conectar a insatisfação expressa nos protestos com formas as mais amplas, vagas e genéricas de insatisfação que praticamente qualquer brasileiro poderia ter, como se ver cada pessoa protestando na rua como alguém que está revoltado contra as mesmas coisas que revoltam a mim me ajudasse a me identificar com o movimento. Na verdade, surtia o efeito contrário, como direi em seguida. Isto resultou na segunda forma equivocada de entender o movimento:

SEGUNDA INTERPRETAÇÃO: Trata-se de um movimento que tem no aumento da tarifa apenas o seu estopim, mas que expressa na verdade uma insatisfação geral da população brasileira com uma série de déficits e escândalos políticos recentes, que vão desde o abandono da saúde e da educação até a escalada da violência, desde as despesas estratosféricas com a Copa do Mundo até a impunidade dos responsáveis pelo mensalão petista etc. Trata-se, portanto, de um movimento de brasileiros indignados.

Esta nova interpretação do movimento, se teve por um lado o efeito de conquistar simpatia e adesão de uma parcela bem maior da população, teve por outro lado o terrível dano colateral de tornar a mobilização genérica, heterogênea, amorfa e impotente. Nada pode ser pior para um fenômeno de reivindicação que ser identificado como um simples “movimento de indignados”. Por dois motivos distintos. O primeiro é que desta forma ele deixa de ser uma tentativa de usar ocupação das ruas e pressão popular para garantir certas conquistas concretas e passa a ser um processo de expressão terapêutica de insatisfação generalizada. E, diferentemente de reivindicações específicas, que podem ser atendidas ou não, em todo ou em parte, uma expressão terapêutica só pode ser ouvida e tolerada, repetida e ampliada até se tornar exaurida, até o paciente (neste caso, a população) se sentir novamente em condições de tocar a vida normalmente, mesmo que nada de concreto se tenha modificado. Portanto, o caráter prático-político com potencial transformador é substituído por um caráter social-expressivo com potencial conservador (aqui uso Žižek e Badiou).

O segundo motivo por que esta identificação dos protestos com um “movimento de indignados” pode ser fatal para ele é a colisão de ideologias políticas conflitantes. Ora, no Brasil, como em qualquer outro país, existe uma multiplicidade fragmentária de crenças e agendas políticas distintas, que nossa herança dos dois séculos tenta abrigar sob os rótulos de “direita” e “esquerda” (mesmo que nos sentidos analógicos e muito amplos em que estes termos são usados hoje). Então, temos quem defenda investimento no crescimento econômico e quem defenda investimento em programas sociais, temos quem defenda redução da maioridade penal e quem defenda maior investimento em educação e lazer para os menores, temos quem defenda combate à corrupção e à impunidade e quem defenda redistribuição de renda e reforma agrária, temos quem defenda internação compulsória de dependentes de drogas e quem defenda descriminalização das drogas, temos quem defenda a família tradicional e quem defenda os direitos de homossexuais e transgêneros, temos quem defenda a proibição do aborto e quem o defenda como prioridade de saúde pública e de agenda feminista, temos quem tenha saudades dos militares no poder e quem queira investigar e punir os crimes esquecidos da ditadura etc. Ora, uma coisa que estes dois grupos (ou melhor, estes vários grupos, aqui convenientemente reunidos como se fossem apenas dois) têm em comum é sua insatisfação com vários elementos da política brasileira atual. Tanto a direita quanto a esquerda estão insatisfeitas e, por isso mesmo, um “movimento de indignados” com a situação do país é capaz de reunir membros de ambos os grupos sob o preço de comprometer qualquer identidade do movimento. Isto também enfraquece o caráter prático-político do movimento, porque se o direitista pró-empresário e pró-endurecimento policial marcha do lado do esquerdista pró-redistribuição e pró-projetos sociais inclusivos, então, é impossível que este grupo tenha reivindicações comuns e, por isso mesmo, é impossível atendê-las. O risco neste caso é não apenas de conversão dos protestos em expressão terapêutica, mas também de descaracterização do caráter essencialmente esquerdista do movimento. A insatisfação é a moeda comum da política, porque, num regime político normal e livre, todos estão sempre insatisfeitos, mas deve-se resistir à tentação de, para ganhar simpatia e adesão de mais gente, trocar o fenômeno nesta moeda comum, porque ela é uma moeda podre, capaz de descaracterizar e desmobilizar qualquer potencial de transformação. Ou o movimento representa a agenda política comum de um grupo com ideias mais ou menos convergentes, ou se perde tentando representar qualquer ideia de qualquer um (aqui uso Negri e Rancière, mas voltarei a este ponto, aprofundando alguns argumentos deles).

Quando protestos semelhantes começaram a ocorrer em outras cidades brasileiras, uma nova forma equivocada de entender o fenômeno veio à tona, desta vez alimentada pelo bairrismo e por preconceitos sobre relações inter-regionais no Brasil.

TERCEIRA INTERPRETAÇÃO: Trata-se de um protesto legítimo de São Paulo para reivindicar diminuição da tarifa de ônibus, mas suas imitações e sucedâneos em outras cidades do Brasil são totalmente injustificados, produto do desejo vazio de imitar os atos da juventude paulistana, dado que nestes outros locais a população até então convivia pacificamente com o preço da tarifa de ônibus e nenhum deles foi cenário de um aumento recente da referida tarifa que justificasse tamanha revolta.

Esta nova interpretação é, como se percebe sem dificuldade, apenas uma versão inter-regional da primeira interpretação reacionária. O protesto é, por alguma razão, legítimo para os outros, neste caso, para os paulistanos, mas não para todos. A esta altura, é bom lembrar, os protestos já tinham se tornado aceitos até mesmo pela mídia, pois, por um lado, já havia passado a suspeita de que fosse coisa isolada de um ou dois dias e, por outro lado, a truculência policial com os manifestantes e inclusive com representantes da própria imprensa tinha transformado o tom e a direção das coberturas jornalísticas. Daí o reacionário das outras cidades do país já não atacava o movimento paulistano, mas sacava do bolso os mesmos discursos sobre ausência de causas e protestos pelos protestos, juntava a isso o preconceito de que seus conterrâneos imitam os paulistas em tudo e produzia este discurso de deslegitimação das mobilizações populares em sua própria cidade. Isto, contudo, não durou muito. Logo ocorreu no restante do país o mesmo processo que havia ocorrido em relação aos protestos de São Paulo, isto é, uma tentativa de legitimar o fenômeno pela ampliação desmedida de seu escopo, usando da estratégia de fazer dele um grande “movimento de indignados”. Uma vez que este levante dos indignados toma proporções nacionais, afirma-se outra interpretação do que se está testemunhando nas ruas:

QUARTA INTERPRETAÇÃO: Os protestos são um grande fenômeno de transformação do país, em que os cidadãos indignados com séculos de desatendimento e desrespeito e cansados de esperar por dias melhores estão saindo às ruas para tomar as rédeas da política nacional, fazerem funcionarem as instituições, acabar com a corrupção, mudar o regime orçamentário em favor das verdadeiras prioridades, fazerem ser punidos os responsáveis pela corrupção e descaso político etc.

Agora, não se trata mais da assimilação do movimento por grupos com tendência reacionária, e sim da mistura da autocompreensão do movimento com fantasias do ideário revolucionário moderno, que recupera imagens das revoluções burguesas e proletárias, dos movimentos de descolonização e democratização, e as projeta sobre o cenário político atual. Esta interpretação dificilmente pode prosperar, por várias razões. Primeiro, quem se deixa levar por esta ideia confunde o êxito do movimento em conseguir mobilizar pessoas para ampliar e continuar os protestos com êxito em atingir seus objetivos originais. Não sendo os protestos fins em si mesmos, seu êxito deve ser medido pelas metas atingidas. Uma destas metas, é verdade, é a mudança da imagem social do movimento em relação à imprensa e à população mais ampla, e isso foi atingido, mas é um objetivo-meio, não um objetivo-fim. Outra destas metas, também é verdade, é a redução da tarifa de ônibus, coisa que se alcançou, em maior ou menor medida, em algumas das cidades que tiveram protestos, mas a redução de alguns centavos da tarifa, embora faça parte da reivindicação, não pode ser o medidor de seu êxito objetivo, sob pena de esvaziar o sentido mais amplo do movimento. Sendo assim, já seria precipitada inclusive uma celebração do êxito do movimento, sendo ainda mais a fantasia de pensá-lo como algum tipo de revolução em curso. (É interessante, contudo, perceber que, na interpretação da ampliação e continuidade dos protestos como um tipo de êxito se revela o tamanho da descrença política que tomava conta das pessoas antes do fenômeno; dado que elas não acreditavam ser possível sequer mobilizar pessoas para uma causa de protesto, ter-se podido alcançar e manter tal mobilização já é percebido por elas como um êxito extraordinário, um “despertar do sono” ou “saída da passividade” a ser celebrada por si própria, mesmo que dela não se seguisse nenhuma consequência ou transformação concreta.)

Além de precipitar-se sobre o êxito do movimento, esta interpretação revolucionária dos protestos deixa de captar que a relação que segue existindo entre população e poder público ainda é a, de um lado, aquela que tem as demandas e é a boca que fala e, do outro lado, de quem tem dinheiro e poder e é o braço que executa. Isto quer dizer que o “poder social” gerado pelas mobilizações não se traduz institucionalmente num poder político de tornar suas demandas realizadas. É apenas na medida em que o poder público seja sensibilizado ou intimidado pelas reivindicações que se pode esperar que algumas delas, dentro das conveniências da administração, dos limites legais atualmente existentes e dos regimes de interesses dominantes, sejam atendidas tímida e parcialmente. A chave do cofre e o cetro de mando continuam na mão do outro, daquele para quem se dirigem as vozes, e não daqueles que as pronunciam. Portanto, falar de revolução é totalmente deslocado. Em qualquer fenômeno em que se tenta seduzir ou persuadir o poder, é porque não se tem o poder. E qualquer movimento que não tomou o poder não é uma revolução. (Com isto não vai implícita nenhuma sugestão de que tomar o poder e fazer uma revolução seria de fato uma boa ideia, apenas a lembrança de que se deixar levar por fantasias revolucionárias é deixar de ter apreciação objetiva do estado do movimento, de suas conquistas reais e de seus poderes efetivos.)  

A esta altura, tomando inspiração na hostilidade dos protestantes contra as bandeiras de partidos políticos e na tentativa de invasão de prédios dos poderes legislativo e executivo, torna-se atraente outra interpretação do movimento:

QUINTA INTERPRETAÇÃO: Trata-se não apenas de um movimento de indignados contra este ou aquele problema pontual da política nacional, mas sim de um movimento brasileiro que ecoa uma insatisfação mundial, isto é, a insatisfação dos cidadãos com as instituições de sua democracia representativa, nas quais tais cidadãos não se reconhecem e pelas quais não se sentem ouvidos e atendidos. Em protestos deste tipo se expressa o desejo dos cidadãos de se reapossarem da política e de fazer com que a coisa pública atenda de fato ao interesse público.

Esta é a interpretação, por exemplo, de Castels e Bauman. Neste ponto da postagem deixamos de debater as interpretações do senso comum reacionário ou progressista e passamos a examinar interpretações de intelectuais e cientistas sociais. Para isto, temos que selecionar com cuidado nossos debatedores. Filósofos políticos e cientistas sociais que se colocam primariamente como pensadores da “ordem” e da “legitimação”, isto é, como pensadores que se ocupam das instituições da sociedade moderna e de como elas são ou podem vir a ser legítimas, como Giddens e Habermas, não terão respostas a dar, pelo menos, não respostas interessantes. Quem raciocine nas pegadas deles vai tentar amarrar os movimentos de protestos ao que suas teorias dizem que as pessoas deveriam querer e reivindicar, seja no modelo giddensiano da reflexividade, seja no modelo habermasiano da discursividade. Isto pode resolver o problema de como encaixar o fenômeno social recente nas gavetas adequadas da teoria, mas não resolve o problema de captar o sentido interno destes movimentos. Outro tanto ocorre com os que assinalam todos os problemas sociais sempre aos mesmos motivos, sejam eles o multiculturalismo, o secularismo, a marginalização de minorias ou a crise do Estado de bem-estar ou do Estado neoliberal. Usar tais pensadores é fazer o esforço de ver no movimento atual apenas um novo episódio de mais do mesmo de outros fenômenos de crise. Finalmente, também não cabe esperar diálogo produtivo com pós-estruturalistas e pós-modernos que mantêm a posição de que em toda configuração política há sempre opressão, exclusão e déficit de legitimidade, porque, mesmo que isto fosse verdade, não explicaria por que este fenômeno em particular tem surgido e tomado proporção neste momento em particular em vários locais do planeta. O mais recomendável é que tentemos dialogar com os pensadores que são, sim, pensadores da opressão e da ilegitimidade, mas são também pensadores da mudança e da crise, isto é, que se ocupam de explicar em que sentido o mundo está tomando um rumo diferente e quais novas modalidades de crise estão envolvidas neste rumo. Daí que uma lista mais atraente de interlocutores seja, sem prejuízo de outros, Castels, Bauman, Negri, Žižek, Badiou e Rancière. Como nem todos eles se manifestaram especificamente sobre os protestos do Brasil, mas têm revelado a tendência de aplicar mais ou menos as mesmas interpretações para os protestos nos EUA, na Inglaterra, na Espanha, na Grécia, na Turquia etc., vou pressupor que o mesmo aconteceria em relação a nossos protestos locais. Isso me expõe desde o princípio à crítica de que, se o que quero é uma compreensão do sentido interno do movimento, a última coisa que deveria fazer é aplicar a ele interpretações feitas para outros fenômenos. Contudo, como estou defendendo aqui, em princípio, a tese de que os protestos no Brasil são um elo na cadeia internacional de protestos do mesmo tipo (embora com nuances típicas apenas do Brasil), não creio que esta crítica invalide totalmente as contribuições que avançarei a seguir. Mas quem estiver lendo deve reter esta crítica em mente até o fim do texto e lembrar dela na hora em que estiver pesando prós e contras das razões listadas por mim.

Comecemos, então, por Castels e Bauman. A tese de Castels é de que as instituições da democracia representativa não conseguem mais captar os verdadeiros anseios de sociedades complexas e pluralistas e por isso produzem um déficit de legitimação. Os protestos seriam reações da sociedade a este déficit e reivindicações no sentido de tomar o poder político de volta em suas mãos (não no sentido de uma democracia radical ou direta, mas no sentido de fortalecimento das arenas de participação popular e reaproximação dos representantes com suas bases eleitorais). A tese de Bauman é semelhante, mas insiste noutro problema da representação, que ele chama de problema ético: a facilidade com que instituições representativas são cooptadas por interesses dominantes organizados, principalmente burocracias estatais e grandes corporações capitalistas. Bauman também acha que os protestos revelam a vontade do público de retomar poder decisório.

Em primeiro lugar, esta hipótese revelaria o que está sendo expresso pelo movimento, mas não por que o movimento teria explodido justamente agora e particularmente em alguns lugares, e não em outros. É, portanto, uma teoria da causa remota, mas não da causa próxima. Fica, pois, em aberto a questão da causa próxima. Quanto à causa remota apontada, que seria a insatisfação (política em Castels, ética em Bauman) com o sistema representativo, a teoria parece captar em parte o tipo de revolta que os manifestantes carregam. De fato, eles não se sentem representados por suas instituições e mandatários políticos e isto, de fato, tem a ver, pelo menos em parte, com grupos que não são ouvidos e com a prevalência dos interesses estatais e econômicos sobre o bem comum.

Mas há duas ressalvas a serem feitas a esta leitura do movimento. Em primeiro lugar, a revolta parece se dirigir contra certos estados de coisas e eventos que, mesmo num sistema representativo, poderiam não existir. O sistema poderia ser representativo e, mesmo assim, os preços de transporte público não serem exorbitantes. Esta é a realidade de vários países. Há países que têm também serviços públicos de educação e saúde de muita qualidade cujo sistema político é representativo. O problema, talvez, seja de revolta contra os representantes que que temos tido desde o retorno da democracia. Mas isto não é uma revolta contra o sistema representativo em si mesmo, porque, em tese, se resolveria se fossem eleitos representantes melhores. A solução de boa parte dos problemas verbalizados pelos manifestantes parece ser perfeitamente compatível com a manutenção de um sistema representativo. Tanto é assim que eles esperam que o poder público, portanto, o sistema representativo, ouça suas demandas e as atenda. Isso nos conduz à segunda ressalva. Ao contrário do que prognosticam Castels e Bauman, os manifestantes não parecem ter qualquer interesse de tomarem para si o poder decisório (por exemplo, com mais democracia participativa) e o assumirem em definitivo. Eles querem que suas demandas sejam atendidas pelas autoridades, mas não querem tomar o lugar das autoridades (ou participar constantemente de consultas e assembleias). Não existem sérias demandas de democracia participativa, nem de fóruns, assembleias, audiências públicas ou conselhos gestores. As reivindicações (ao contrário do que não apenas indicam Castels e Bauman, mas do que gostariam Habermas, Giddens, Fraser, Forst etc.) não são procedimentais, mas substantivas – bastante substantivas. Os manifestantes querem ter voz, mas apenas no sentido de que sua voz seja ouvida por quem toma as decisões, e não no sentido de tomarem eles mesmos as decisões.

Isto nos conduz a procurar por autores que falem de reivindicações substantivas. Examinemos a possibilidade aberta por Negri:

SEXTA INTERPRETAÇÃO: Os protestos reagem contra a exaustão das esperanças do Estado de bem-estar. Este modelo de Estado teria feito a promessa de redução das desigualdades, domesticação do capitalismo e atendimento de necessidades humanas em nível digno para todos os cidadãos. Com o fim do socialismo real e da Guerra Fria, o avanço da globalização, a imposição do Consenso de Washington, a guerra contra o terrorismo, as restrições à imigração e a crise econômica de 2008, o novo cenário econômico e social tornou aquela promessa totalmente inverossímil, tornando todos os conflitos políticos internos ocasiões para expressão de revolta e cobrança difusas por um horizonte que um dia já se visualizou, mas agora se tornou inalcançável.

Aqui temos uma nova interpretação. Ela fornece tanto uma causa remota quanto uma causa próxima. A causa remota seria a perda da esperança do cumprimento da promessa do Estado de bem-estar. A causa próxima seria cada conflito político interno, mas não em razão do que este conflito significa em si mesmo, e sim de como ele revela e recorda o ambiente de desesperança que produz a revolta. Neste sentido, a hipótese de Negri é muito mais interessante que a anterior. Ela também se revela mais interessante porque algumas reivindicações substantivas dos movimentos de protestos têm relação com os conteúdos das promessas do Estado de bem-estar. Occupy Wall Street poderia ser relacionada com a redução das desigualdades e a domesticação do capitalismo, enquanto os protestos na Espanha e no Brasil poderiam ser relacionados com o provimento de condições dignas de vida a todos os cidadãos.

Porém, novamente, a hipótese não explica tudo. A julgar pela causa remota apontada, seria de esperar que os focos das revoltas fossem os países que viveram em maior medida o Estado de bem-estar e depois o viram desfazer-se. Estes países seriam sobretudo França e Alemanha. No entanto, os países em que de fato os protestos aconteceram têm uma relação pelo menos problemática com o Estado de bem-estar (Grécia e Turquia sequer entraram no modelo social do bem-estar, Portugal, Espanha e Itália nunca tiveram plenamente um Estado de bem-estar, e Estados Unidos e Inglaterra foram os carros-chefes do neoliberalismo). Aquilo que funcionaria como causa próxima também não se ajusta bem aos fatos. Na Inglaterra, os protestos começaram a partir de atos de violência policial que nada têm a ver com o Estado de bem-estar. Na Grécia, tratava-se da imposição do regime econômico de austeridade por parte de uma autoridade não reconhecida como legítima (o Banco da UE). Na Turquia, os protestos vieram de uma luta contra um Estado opressor que toma o caminho da teocracia. Uma vez que estes problemas se relacionam respectivamente com segurança, soberania e secularismo, todos estes valores políticos que já eram valiosos antes do Estado de bem-estar, a hipótese de Negri também parece menos que satisfatória.

Além de explicação insuficiente, a abordagem de Negri também não chega a oferecer uma solução concreta. Uma vez que o contexto econômico e social contemporâneo tornou inalcançável o cumprimento da promessa do Estado de bem-estar, os protestos podem ser vias de expressão da desesperança, mas não podem transformar as causas de sua desesperança, isto é, não podem criar as condições em que as promessas cuja perda se lamenta voltariam a ser possíveis de cumprir. Pode-se dizer que isto não chega a ser um defeito, uma vez que a abordagem não se propôs a isto desde o princípio. Mas é, para nós, que queremos obter também orientação prática, um motivo para procurarmos teorias cuja abordagem explicativa aponte também para um horizonte de ação.

Gostaria, então, de introduzir algumas ideias de Žižek, Badiou e Rancière. Esta é uma tarefa mais complexa. Estes autores têm posições sobre os acontecimentos políticos contemporâneos que estão fortemente conectadas com suas respectivas teorias das sociedades atuais, do Estado, do capitalismo e da ideologia. Pode-se dizer o mesmo, claro, de Castels, Bauman e Negri, mas as teorias destes últimos autores são bem mais próximas daquilo que o cidadão inteligente e bem-informado de sociedades atuais já consideraria intuitivo e aceitável. Já o ofício intelectual de Žižek, Badiou e Rancière é o de dissolver as fronteiras do intuitivo e aceitável. São fortes em suas teorias as ideias de que cada realidade abriga também o seu oposto, de que tudo que se aceita como evidente costuma ser o contrário do que parece, de que o imaginário simbólico é o mais poderoso elemento de manutenção das relações de injustiça e exploração (mas também o meio sem o qual a emancipação não é possível) e de que se deve estar comprometido ao mesmo tempo com a emancipação radical (sonhar com menos que isto é desistir do grande sonho do socialismo) e com cada etapa concreta de sua realização (a revolução que instaura a emancipação por completo é sempre uma forma de autoilusão). Este não é um inventário de suas ideias principais, e sim uma lista de alguns empecilhos a formular suas hipóteses nesta postagem na linguagem e com os conceitos com que eles mesmos o fazem. Trabalharei, então, com versões adaptadas, algo que, imagino, eles também fariam se estivessem palestrando para os manifestantes dos protestos no Brasil.

Comecemos, então, por Rancière e o conteúdo de sua palestra para os protestantes do Occupy Wall Street:

SÉTIMA INTERPRETAÇÃO: Os manifestantes são movidos por uma revolta que eles não conseguem verbalizar inteiramente. Este mutismo vem de perceberem, em alguma medida, que a linguagem em que poderiam formular suas insatisfações e demandas está estruturada segundo as mesmas categorias e relações responsáveis pela deflagração dos problemas. A libertação deste mutismo exige um tipo de revolução cultural, para a qual o elemento estético, e não o instrumental, teria papel decisivo. As formas inovadoras de arte e de linguagem podem criar um novo imaginário simbólico em que poderiam ser questionadas as premissas do individualismo, da racionalidade econômica, do hedonismo materialista e da sacralização de culturas opressoras.

Esta hipótese pode soar exótica a princípio. Mas ela é interessante porque lança luz sobre dois elementos em que as outras teorias não tocaram. O primeiro é o mutismo forçado das insatisfações e reivindicações. Dissemos mais acima que, por um lado, os protestos eram sobre mais que os R$0,20 do aumento da tarifa, mas, por outro lado, este “mais” não podia ser confundido com a multidão de outras insatisfações com que as forças reacionárias tentam associar o movimento. Há, por assim dizer, um anseio de mudança em relação ao modelo atual, mas sem que se consiga visualizar claramente qual é o modelo alternativo. É neste intervalo entre saber o que não se quer e não saber o que se quer que se encontra o mutismo, que impede uma formulação clara e definitiva das reivindicações. Este mutismo, Rancière explica, se deve ao fato de que, toda vez que os protestantes pensam em reivindicar algo, sua imaginação política só os permite pensarem em soluções que são repetições do modelo que estão questionando. É neste sentido que Rancière fala da carência de uma linguagem alternativa. Podemos ou não concordar que o que fornecerá esta linguagem alternativa é a arte, mas é certo que uma nova linguagem, que amplie nossa imaginação política e institucional, é necessária.

O segundo elemento interessante é que, indiretamente, a hipótese de Rancière fornece outro tipo de causa remota e causa próxima para os protestos. A causa remota seria o esgotamento de certa linguagem política tipicamente moderna (centrada no indivíduo isolado, na racionalidade econômica etc.) e a causa próxima, em conexão com a outra, seria que os conflitos internos que deflagram os protestos o fazem justamente porque confrontam os cidadãos com o mutismo de reivindicações concretas. É preciso ir às ruas e protestar em massa porque a experiência do protesto em massa constituiria uma forma indireta de expressar o que não se pode expressar, como se a presença dos insatisfeitos nas ruas fosse ela mesma uma linguagem alternativa provisória em que corporificar a insatisfação, enquanto se aguarda por uma que dê imaginação política para formular reivindicações alternativas. (Isto explicaria também o sentido de êxito que as pessoas experimentam pelo simples fato de manterem e ampliarem os protestos.)

O que a hipótese de Rancière levanta, contudo, é mais uma percepção da ausência que é problemática, e não uma solução para ela. As ideias de Žižek e Badiou também não fornecerão qualquer receita. Apenas novas provocações. Mas talvez, num cenário em que toda solução que imaginamos é uma reedição das mesmas ideias de sempre, das mesmas ideias que nos trouxeram até aqui, seja exatamente de provocações férteis que precisemos. Elas nos forçam a rever os limites de nossa imaginação política. Eis a hipótese levantada por estes pensadores (que, embora tomem inspiração comum em Lacan e Marx, divergem em diversos pontos; não queremos dizer que seu pensamento seja idêntico ou convergente, apenas que, no que se refere à interpretação dos protestos, ambos os pensadores expressaram algumas ideias semelhantes):

OITAVA INTERPRETAÇÃO: Os protestos são a manifestação não de uma tendência unidirecional, e sim de um conflito de forças políticas. Os manifestantes ao mesmo tempo se sentem cansados de um modelo societal cujas consequências nocivas já são conhecidas mas se sentem profundamente ligados ao mesmo modelo que questionam. Disto decorre seu mutismo de reivindicação. Eles têm medo de formular o que querem, porque não querem assumir compromissos, porque sabem que o que realmente querem terá consequências, em termos de mudanças de seu estilo de vida e de assunção de responsabilidades, que eles prefeririam não suportar. Os protestos elegem alvos, o “governo” e o “grande capital”, formulados em termos vagos e difusos, como anteparos em que se projetam suas insatisfações, exatamente porque este alvo genérico não lhes pode responder de volta nem fazer o que eles querem. É essencial formular metas não realizáveis, porque, desta forma, não serão atendidas, e então nada mudará, mas ao mesmo tempo se terá a experiência de ter “feito a sua parte”. É essencial requerer fins sem indicar os meios, requerer vários fins ao mesmo tempo, na linguagem que mais expresse os desejos e que menos os torne passíveis de realização. É essencial porque, dentro da lógica do desejo, o ponto chave se encontra naquele intervalo entre o real e o desejado, em que o desejado é visto como possível mas não é alcançado e em que sua não realização pode ser tributada a outro que não a si mesmo.

Esta interpretação envolve uma série de hipóteses bem mais ousadas. Não temos aqui o tempo necessário para explicar por que, embora se fale de contradição interna, forças antagônicas, desejo e medo, estes autores na verdade não defendem uma tese que se possa chamar de psicologista, e sim estrutural. Seria necessário mostrar como o imaginário do capitalismo e da modernidade está vinculado desde o princípio com a estrutura do desejo e do medo, ou melhor, de certas expressões, tipicamente modernas, do desejo e do medo – algo que tem a ver com o vazio do eu e o preenchimento pelo a-mais criado pelo imaginário. Mas, como disse, não há espaço para isto nesta postagem. É preciso concentrar-se no principal, que é que os protestos são, nesta interpretação, algo que contém uma insatisfação com potencial emancipatório, mas apenas uma vez que esta insatisfação seja extraída deles, refletida e transformada em ação. Os protestos são encontro de desejo de transformação e medo de transformação, entre desejo do outro e desejo do mesmo (Žižek), e por isso não são emancipatórios. Eles carregam e expressam a matéria-prima da transformação, mas não são transformadores. Os protestos são formas de expressar o desejo de transformação sem jamais engajar-se no processo da transformação, são “autodomestificações de si mesmos” (Badiou).

O processo verdadeiramente transformador seria o pleno engajamento político. Mas isto exigiria assumir compromissos, fixar uma agenda, eleger lideranças, seguir em certa direção. É exatamente isto que os protestos querem evitar a todo custo. Assim como Hamlet, que adia perpetuamente seu engajamento na ação por meio de uma exigência de absoluta certeza e perfeita oportunidade, os protestos evitam o engajamento por meio de exigências excessivas de pureza e perfeição (Badiou). Eles tendem a se conceber como isentos de ideologias, como separados de todos os partidos políticos e interesses particulares, como adversários da política tradicional e do mercado tradicional, mas só podem manter esta fantasia de pureza na medida em que permaneçam paralisados e impotentes. Ao mesmo tempo, eles tendem a se conceber como perfeitos e infalíveis, incapazes de formular propostas concretas, porque toda proposta concreta será imperfeita e insatisfatória, e o movimento não admite para si a possibilidade de errar, de macular sua autoimagem de perfeição por meio de um engajamento com o mundo prático. Trata-se do enamoramento de si mesmos (Žižek), contra o qual estes autores preveniam os protestantes do Occupy Wall Street.

O que podemos retirar disto? Nisto se expressa, ao mesmo tempo, um medo e uma esperança. O medo é de que os protestos se esgotem em si, sejam convertidos em fins em si mesmos, seja por serem expressão terapêutica de insatisfação, seja por rejeitarem compromisso pragmático com o mundo. É necessário, para fugir deste risco, assumir uma agenda concreta e usar o poder de pressão em direção à seu atendimento, mesmo que se chegue depois à conclusão que o que se devia ter reivindicado era outra coisa. É necessário que algumas conquistas significativas fiquem como legado e testemunho da força deste movimento. Por outro lado, há também uma esperança. Os protestos carregam consigo um potencial transformador que os ultrapassa. Eles são o anúncio de um novo tempo, de uma nova política, que virá, mas ainda não chegou. É o futuro que bate à porta do presente, pedindo passagem. Eles portam demandas a que apenas as invenções institucionais de outra imaginação política poderão dar plena expressão e realização. Um dia destes, que pode ser amanhã, depois de amanhã, daqui a duas semanas ou daqui a dois meses, as pessoas cansarão de ir às ruas e retomarão sua vida normal. Mas esta não será a morte do movimento – ou, pelo menos, não precisa ser. Se, a cada vez, soubermos nos reconectar com este potencial transformador, se exercermos a lembrança de que o futuro segue pedindo passagem, então, poderemos, também a cada vez, dar nova expressão ao movimento, via ação transformadora, via engajamento político com a causa da vez, a demanda da vez. Importante é seguir o conselho de Žižek e não nos enamorarmos de nós mesmos, não endeusarmos este movimento em si, mas darmos corpo concreto e passo progressivo ao potencial que foi agora deflagrado. 

Obs.: Artigo originalmente publicado no blog Filósofo Grego