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sábado, 17 de novembro de 2018
quinta-feira, 7 de janeiro de 2016
A crise da Linguagem (por Simone Nardi Grama)
POR SIMONE DE NARDI GRAMA*

Platão, Sócrates, Crátilo e tantos outros já se debruçaram sobre a investigação da linguagem, sobre a significação dos nomes e sobre a relação entre a linguagem e o ser. Os sofistas fizeram uso hábil da linguagem, transformando o que poderia ser "falso", em "real". A Filosofia faz uso da linguagem para buscar o conhecimento, e vamos tentar identificar o que levou a linguagem a entrar em crise, se ela mesma por não conseguir expressar o mundo em palavras, ou se o ser humano a fez entrar em crise por fazer um uso degenerado das palavras com as quais ela nos serve.
Qual seria efetivamente a relação do ser humano com a
linguagem, essa nunca foi uma pergunta nova, contudo, essa questão foi
um dos temas que chamou a atenção de Mauthner que como muitos
outros filósofos, tentou buscar na essência da linguagem a solução para o
problema que se apresentava. Realmente seriam as palavras capazes de
expressar a beleza da vida, a concepção humana de mundo?Estaria ela
limitada e se estivesse, quais seriam seus limites e qual o papel que
ela desempenha? Para responder a essas questões Mauthner vai examinar a
linguagem em si, não as linguagens dos povos, mas a Linguagem, aquilo ao
qual ele poderia chamar de essência da linguagem. Em sua crítica, ele
não deseja separar ou diferenciar, como fez Kant, pois para ele isso
seria uma mera observação da linguagem e não é essa sua intenção, ele
deseja buscar uma visão mais clara, ou seja, a essência da linguagem em
si. Suas reflexões visam demonstrar que a linguagem nada mais é do que
uma grande ilusão, uma abstração, para isso ele vai demolir essas
ilusões, revelando assim a verdadeira face da linguagem.
Segundo podemos encontrar no texto " A crise da Linguagem na Viena Fin-De-Siécle", para Mauthner a linguagem está subordinada aos nossos hábitos e as nossas convenções, não tento por isso, elementos universais, por isso a ausência da unidade e a variação no significado das palavras. Mauthner nos diz então, que devido a tudo isso, a linguagem não possui uma essência, sendo apenas um apanhado de convenções que, apesar de precárias, desempenham de forma eficiente, seu papel dentro da sociedade, sendo que tais convenções ocorrem exatamente por causa do "papel vil", entre as relações humanas, reduzindo a linguagem ao uso que fazemos dela que pode ser Bom ou Mau. Mauthner propõe então o suicídio da linguagem, sua desconstrução, insinuando o ingresso da filosofia no reino do silêncio, pois para ele apenas entre os incultos existe uma linguagem sã, enquanto que, no seio intelectual e artístico, evidenciava-se o uso vazio da linguagem. Mauthner propõe também o silêncio para alcançar o mítico,de forma a se alcançar uma vida harmoniosa com o mundo, ou seja, o silêncio faria com que o homem se harmonizasse novamente consigo mesmo e com o mundo que o rodeia.
Hofmannsthal também se debruçou sobre o problema da linguagem. Assim como Mauthner, Hofmannsthal acreditava que a linguagem era solidão, sobretudo porque sentia-se mal ao dizer palavras como "alma", espírito" ou "corpo", certos diálogos o deixavam furioso e lhe pareciam sobretudo falsos, o que o fazia sentir-se amargamente solitário, para ele as palavras eram estéreis, destituídas de um sentido e lhe traziam imobilidade, afastando-o e anulando-o frente ao mundo. Assim como Mauthner, Hofmannsthal apelou ao místico, buscou uma ligação mais forte com o mundo pautada apenas nos sentidos, buscando como Mauthner, o reino do silêncio, onde para ele a Vida sim se revelava com sua verdadeira linguagem. Assim ele coloca que a crise da linguagem ocorre porque ela não possui uma capacidade eficiente, para a expressar a Vida em palavras. Como Mauthner, Hofmannsthal acusa a linguagem de ser incapaz de demonstrar o mundo, por ser restrita e limitada.
KRAUS: DEGENERAÇÃO DA CULTURA, DEGENERAÇÃO DA LINGUAGEM
Karl Kraus, ao contrário de Mauthner e Hofmannsthal, dirige ao ser humano, a culpa pela crise da linguagem. A degeneração da cultura vienense para ele, causou também a degeneração da linguagem, que foi asfixiada pelo mau uso que fizeram dela, sobretudo artistas e jornalistas. Devemos lembrar que Hofmannsthal, embora tenha rompido com sua veia poética, escrevia peças de óperas. Kraus concordava com Mauthnner ao dizer que o povo humilde é que conhecia a verdadeira linguagem, porém para Kraus, isso vinha sendo tirado pelo mau uso dela em folhetins, e a crise da linguagem ocorreu exatamente com a relação de mau uso da imprensa no uso da língua, foi esse uso degenerado da imprensa que destruiu a linguagem. Ao contrário de Mautner e Hofmannsthal, Karl Kraus não acreditava que a linguagem em si fosse o problema, não acreditava que fosse incapaz de demonstrar o mundo em palavras , nem por isso inconsistente, sua corrupção ocorreu com a morte da cultura, onde para ele, a imprensa teve enorme influência. Era, na opinião de Kraus, a imprensa quem fornecia novas práticas e novos valores sociais a cultura vienense, era ela quem os manipulava e conduzia para onde bem entendesse e desejasse. O jornal possuía poder, e seu poder se espalhava por todas as classes, construindo aos poucos a opinião pública, produzindo um novo paradigma, uma nova cultura, através de interesses, puramente financeiros de quem pudesse pagar mais. "Ela tornou-se a principal responsável pela redução da palavra escrita a um envelope conveniente para uma opinião"( "A crise da Linguagem na Viena Fin-De-Siécle")
A linguagem usada nos folhetins era ornamentada, maquiada, nada mais era do que uma linguagem estéril, coberta de más intenções e que possuía, simplesmente, a função de moldar opiniões, o que foi destruindo assim, a cultura vienense e destruindo, distorcendo por assim dizer a essência da linguagem. Essa "morte da cultura" afastava mais e mais a sociedade do místico, do real, de si mesma e talvez um detalhe que Kraus tenha disto, e que nos remete aos dias atuais: "escrever com a linguagem ou escrever guiado pela linguagem?", o certo é que os folhetins vienenses escreviam com a linguagem, encobriam, enganavam e iniciavam, para Kraus, a crise da linguagem. Karl Kraus pede a revalorização da linguagem, a superação de sua crise através do envolvimento no "interior da linguagem", de sua lógica, à volta ao bom uso da palavra, o que havia sido, com certeza, esquecido pela cultura vienense.
Três pensadores, um só objetivo, desvendar o que levou a
linguagem a uma crise, de um lado a acusação de Mauthner e Hofmannsthal a
linguagem, como sendo ela uma mera ilusão, incapaz de definir o mundo
em que vivemos, segundo eles, apenas no reino do silêncio, dos
sentimentos, é que permaneceria a verdadeira linguagem, que não poderia
ser descrita em palavras; esse retorno ao místico une Mauthner e
Hofmannsthal, esse retorno ao mundo, a hora de aprender a calar, a
silenciar, pois para eles não há um universal, não há uma essência que
possa tornar a linguagem algo eficiente para demonstrar a vida, por isso
a necessidade da destruição da linguagem e a busca pelo mundo interior.
De outro lado Karl Kraus, que dirige a culpa pela crise da linguagem a
própria sociedade, ao uso degenerativo que as pessoas fizeram das
palavras, aos interesses financeiros que os conduziram e a degeneraram,
ela sim uma vítima da incapacidade humana de comunicar-se, pede ele a
revalorização da mesma, para que possa , a linguagem, sobreviver.
Será que a crise da linguagem foi realmente superada?Pela visão de Kraus, é possível dizer que não, pois hoje os folhetins foram substituídos pelos telejornais, pela internet que fazem a massificação da sociedade, e a leva a morte da cultura,esmagando sob seus pés a linguagem das palavras, tal como ocorreu em Viena, sinal de que talvez também estejamos, em nosso fim de século cultural, e que Como Mauthner e Hofmannsthal concluíram, talvez apenas no silêncio, o homem possa realmente encontrar a verdadeira linguagem.
REFERÊNCIAS
*Simone De Nardi Grama é graduada em Filosofia e
especialista em Filosofia Contemporânea e História pela Universidade
Metodista de São Paulo (UMESP).
Post publicado originalmente na Revista Filosofia online: conhecimentopratico.uol.com.br
Investigar a linguagem, e sua "crise", é um dos desafios mais intrincados para os pensadores. Conheça a visão de três grandes autores sobre o assunto |
Platão, Sócrates, Crátilo e tantos outros já se debruçaram sobre a investigação da linguagem, sobre a significação dos nomes e sobre a relação entre a linguagem e o ser. Os sofistas fizeram uso hábil da linguagem, transformando o que poderia ser "falso", em "real". A Filosofia faz uso da linguagem para buscar o conhecimento, e vamos tentar identificar o que levou a linguagem a entrar em crise, se ela mesma por não conseguir expressar o mundo em palavras, ou se o ser humano a fez entrar em crise por fazer um uso degenerado das palavras com as quais ela nos serve.
| Mauthner Fritz Mauthner (1849- 1923) foi um filósofo, novelista, crítico teatral e ensaísta austro-húngaro, especializado em filosofia da linguagem. Nossas convenções Hermógenes defendia uma visão convencionalista, que defendia que os nomes eram escolhidos por uma convenção, não podendo, portanto , existir nomes falsos, aqui na crise da linguagem, como também o fará Kraus, veremos que muitas vezes ela é usada conforme o desejo humano, por uma convenção que possa beneficiar algumas classes. |
Segundo podemos encontrar no texto " A crise da Linguagem na Viena Fin-De-Siécle", para Mauthner a linguagem está subordinada aos nossos hábitos e as nossas convenções, não tento por isso, elementos universais, por isso a ausência da unidade e a variação no significado das palavras. Mauthner nos diz então, que devido a tudo isso, a linguagem não possui uma essência, sendo apenas um apanhado de convenções que, apesar de precárias, desempenham de forma eficiente, seu papel dentro da sociedade, sendo que tais convenções ocorrem exatamente por causa do "papel vil", entre as relações humanas, reduzindo a linguagem ao uso que fazemos dela que pode ser Bom ou Mau. Mauthner propõe então o suicídio da linguagem, sua desconstrução, insinuando o ingresso da filosofia no reino do silêncio, pois para ele apenas entre os incultos existe uma linguagem sã, enquanto que, no seio intelectual e artístico, evidenciava-se o uso vazio da linguagem. Mauthner propõe também o silêncio para alcançar o mítico,de forma a se alcançar uma vida harmoniosa com o mundo, ou seja, o silêncio faria com que o homem se harmonizasse novamente consigo mesmo e com o mundo que o rodeia.
Hofmannsthal também se debruçou sobre o problema da linguagem. Assim como Mauthner, Hofmannsthal acreditava que a linguagem era solidão, sobretudo porque sentia-se mal ao dizer palavras como "alma", espírito" ou "corpo", certos diálogos o deixavam furioso e lhe pareciam sobretudo falsos, o que o fazia sentir-se amargamente solitário, para ele as palavras eram estéreis, destituídas de um sentido e lhe traziam imobilidade, afastando-o e anulando-o frente ao mundo. Assim como Mauthner, Hofmannsthal apelou ao místico, buscou uma ligação mais forte com o mundo pautada apenas nos sentidos, buscando como Mauthner, o reino do silêncio, onde para ele a Vida sim se revelava com sua verdadeira linguagem. Assim ele coloca que a crise da linguagem ocorre porque ela não possui uma capacidade eficiente, para a expressar a Vida em palavras. Como Mauthner, Hofmannsthal acusa a linguagem de ser incapaz de demonstrar o mundo, por ser restrita e limitada.
KRAUS: DEGENERAÇÃO DA CULTURA, DEGENERAÇÃO DA LINGUAGEM
Karl Kraus, ao contrário de Mauthner e Hofmannsthal, dirige ao ser humano, a culpa pela crise da linguagem. A degeneração da cultura vienense para ele, causou também a degeneração da linguagem, que foi asfixiada pelo mau uso que fizeram dela, sobretudo artistas e jornalistas. Devemos lembrar que Hofmannsthal, embora tenha rompido com sua veia poética, escrevia peças de óperas. Kraus concordava com Mauthnner ao dizer que o povo humilde é que conhecia a verdadeira linguagem, porém para Kraus, isso vinha sendo tirado pelo mau uso dela em folhetins, e a crise da linguagem ocorreu exatamente com a relação de mau uso da imprensa no uso da língua, foi esse uso degenerado da imprensa que destruiu a linguagem. Ao contrário de Mautner e Hofmannsthal, Karl Kraus não acreditava que a linguagem em si fosse o problema, não acreditava que fosse incapaz de demonstrar o mundo em palavras , nem por isso inconsistente, sua corrupção ocorreu com a morte da cultura, onde para ele, a imprensa teve enorme influência. Era, na opinião de Kraus, a imprensa quem fornecia novas práticas e novos valores sociais a cultura vienense, era ela quem os manipulava e conduzia para onde bem entendesse e desejasse. O jornal possuía poder, e seu poder se espalhava por todas as classes, construindo aos poucos a opinião pública, produzindo um novo paradigma, uma nova cultura, através de interesses, puramente financeiros de quem pudesse pagar mais. "Ela tornou-se a principal responsável pela redução da palavra escrita a um envelope conveniente para uma opinião"( "A crise da Linguagem na Viena Fin-De-Siécle")
| Mauthner Fritz Mauthner (1849-1923) foi um filósofo, novelista, crítico teatral e ensaísta austro-húngaro, especializado em filosofia da linguagem. Nossas convenções Hermógenes defendia uma visão convencionalista, que defendia que os nomes eram escolhidos por uma convenção, não podendo, portanto , existir nomes falsos, aqui na crise da linguagem, como também o fará Kraus, veremos que muitas vezes ela é usada conforme o desejo humano, por uma convenção que possa beneficiar algumas classes. |
A linguagem usada nos folhetins era ornamentada, maquiada, nada mais era do que uma linguagem estéril, coberta de más intenções e que possuía, simplesmente, a função de moldar opiniões, o que foi destruindo assim, a cultura vienense e destruindo, distorcendo por assim dizer a essência da linguagem. Essa "morte da cultura" afastava mais e mais a sociedade do místico, do real, de si mesma e talvez um detalhe que Kraus tenha disto, e que nos remete aos dias atuais: "escrever com a linguagem ou escrever guiado pela linguagem?", o certo é que os folhetins vienenses escreviam com a linguagem, encobriam, enganavam e iniciavam, para Kraus, a crise da linguagem. Karl Kraus pede a revalorização da linguagem, a superação de sua crise através do envolvimento no "interior da linguagem", de sua lógica, à volta ao bom uso da palavra, o que havia sido, com certeza, esquecido pela cultura vienense.
Será que a crise da linguagem foi realmente superada?Pela visão de Kraus, é possível dizer que não, pois hoje os folhetins foram substituídos pelos telejornais, pela internet que fazem a massificação da sociedade, e a leva a morte da cultura,esmagando sob seus pés a linguagem das palavras, tal como ocorreu em Viena, sinal de que talvez também estejamos, em nosso fim de século cultural, e que Como Mauthner e Hofmannsthal concluíram, talvez apenas no silêncio, o homem possa realmente encontrar a verdadeira linguagem.
| Hofmannsthal Um dos fundadores do Festival de Salzburgo, o escritor e dramaturgo austríaco Hugo Laurenz August Hofmann von Hofmannsthal (1874- 1929) foi um colaborador do compositor e maestro alemão Richard Strauss (1864-1949). |
REFERÊNCIAS
| PANSARELLI, Daniel (org.) Metafísica, Epistemologia e Linguagem. São Bernardo do Campo: Umesp, 2009. SILVA, José Fernando da. "A crise da Linguagem na Viena Fin-De-Siécle". Tese de Doutorado. Universidade Estadual de Campinas - Unicamp, 2008. |
Post publicado originalmente na Revista Filosofia online: conhecimentopratico.uol.com.br
sábado, 18 de maio de 2013
O fim da democracia?
Por SLAWOMIR SIERAKOWSKI
Um dos mais importantes filósofos do Ocidente, o canadense Charles Taylor fala sobre as ameaças que pairam sobre as democracias liberais: a crise econômica e “a incapacidade de enxergar que precisamos de imigração”.
Na entrevista abaixo, publicada no site Eurozine e concedida a Slawomir Sierakowski, fundador e editor-chefe da revista política polonesa Krytyka Polityczna, ele vê a questão também sob um ângulo positivo: é impossível vivermos sem política. Professor de filosofia e ciências políticas na Universidade McGill, no Canadá, Taylor acaba de ter publicado no Brasil seu livro A Ética da Autenticidade (É Realizações), no qual defende o valor das ideias para mudar a sociedade moderna.
A democracia liberal está morta, assim como Deus está morto nos escritos de Nietzsche? Há hoje a percepção de que ela nunca foi nada além de um mito…
Charles Taylor - Penso, sem dúvida alguma, que a democracia, a democracia liberal, é mais viva quando está se afirmando, quando existe algo como um demos que está tomando o poder das mãos da elite ou de governantes – é aquilo que poderíamos descrever como a fase da praça Tahrir [no Cairo, Egito, onde começaram as recentes revoluções nos países árabes].
Então há um alto grau de participação e uma compreensão muito boa de quais são os problemas. Mas, como podemos ver na história dos EUA e de vários países europeus ocidentais, esse momento pode se prolongar por muito tempo. Esses países tiveram um grau maior de participação em períodos nos quais era travada uma espécie de guerra de classes: trabalhistas e conservadores no Reino Unido, socialistas e gaullistas na França, social-democratas e democratas cristãos na Alemanha e assim por diante.
Logo, havia uma luta de um povo, um demos: camponeses e trabalhadores contra os outros, e esses outros também se mobilizaram. Isso levou à formulação de alternativas claras, a um alto nível de participação.
A mesma coisa está acontecendo na Índia hoje. Entre os dalits – o estrato mais baixo do sistema indiano de castas – vê-se um senso tremendo de que a democracia é uma oportunidade para tornar menos desigual essa sociedade extremamente não igualitária.
No Ocidente, quanto mais rico e instruído você é, mais você vota; na Índia, quanto menos você possui e menos instruído é, mais você vota: os dalits e as mulheres votam mais que outros grupos sociais. Assim, o desafio para a democracia liberal é continuar a ser uma democracia liberal – especialmente no tocante à participação – depois de ultrapassar a fase da luta contra os vários tipos de estruturas que beneficiam as elites.
A maioria das democracias ocidentais está nessa fase, e o nível de participação vem caindo. Há outra coisa que pode fazer a democracia descarrilar, algo que está acontecendo hoje em sociedades mais ricas. Há diferentes fontes de ilusões que as pessoas podem ter, e uma das mais poderosas é o mito nacional.
O poder desse mito é capaz de levar as pessoas a ter visões seriamente equivocadas do mundo em que vivem, de modo que a luta política fica desligada dos problemas reais que você enfrenta. Bons exemplos disso são duas coisas muito perigosas que estão acontecendo na Europa Ocidental neste momento. A primeira é a incapacidade de enxergar que precisamos de imigração; que não haverá ninguém para pagar sua aposentadoria a não ser que se aceite a entrada de pessoas. É claro que o problema da imigração não é simples; tem seus prós e contras, que precisam ser tratados com seriedade.
Ao invés disso, porém, as pessoas tendem a movimentar-se em suas próprias etnias, confortavelmente. Esse fato, aliado à incapacidade de lidar com os lados negativos da imigração, se reflete na ascensão do voto radical de direita, que pode ser vista na Áustria, na Dinamarca e, possivelmente, na França. Ainda não na Alemanha, graças a Deus.
A outra questão está ligada à crise econômica. Veja o que estão fazendo com a Grécia neste momento: arrasando o país para restaurar a confiança no mercado de títulos do governo. Mas, com esse grau de deflação, nunca vão conseguir voltar ao crescimento, nunca vão conseguir voltar a crescer o suficiente para saldar a dívida.
Portanto, dentro de dois anos vamos ter outra crise e vamos arrochar os gregos ainda mais. A Grécia deveria ser autorizada a sair da zona do euro e voltar para o dracma. Será um processo árduo, mas o dracma perderá valor em relação ao euro, e a Grécia poderá restabelecer os termos de comércio com outros países.
Ao invés de encarar isso, porém, a Europa não para com seu discurso moralizador: “Nós, alemães, trabalhamos duro, enquanto aqueles gregos apenas se divertem”. Os alemães podem trabalhar duro, de fato, mas também a Alemanha está lutando por sua própria sobrevivência.
Nos Estados Unidos há o movimento Tea Party. Seus integrantes sentem que os EUA estão perdendo espaço, que não é mais um país hegemônico como era. E a ideia deles é: “Precisamos retomar nossos valores originais, quando cada um se defendia independentemente”. Eles estão completamente cegos diante das causas reais da situação americana e suas curas possíveis. Esse tipo de ilusão é uma grave ameaça a uma democracia.
Também na Polônia existe um nacionalismo muito agressivo e estúpido. Essas são as duas maiores ameaças à democracia: uma percepção equivocada dos problemas que de fato existem e uma falta de tensão vital entre o demos e o resto, tensão essa que, no passado, resultou em um debate público vigoroso e alto grau de participação. É o que produz um sentido de eficácia dos eleitores, eficácia dos cidadãos. E isso está claramente vinculado ao alto grau de participação em torno de determinadas questões.
O senhor não acha que os contrastes desapareceram do sistema partidário de hoje? Em todo lugar as oposições são simuladas: esquerda e direita, social-democratas, conservadores e liberais, todos têm mais ou menos a mesma cara. E uma das razões disso é o domínio do mercado sobre a democracia. Em sua opinião, esse fato fornece combustível adicional às guerras culturais, à reação direitista, aos mitos nacionais? É essa a origem do populismo de direita?
Sim, concordo. Podemos ver como os partidos políticos direitistas e populistas estão ganhando força à custa dos partidos social-democratas tradicionais. Várias frustrações estão sendo redirecionadas para a hostilidade em relação a imigrantes, por exemplo, e os eleitorados tradicionais de esquerda estão começando a votar nesse tipo de partido. É possível que também tenha sido esse o caso da Polônia durante o período do neoliberalismo.
Mas existe outro aspecto disso, talvez não na Polônia, mas em países mais ricos. Não tanto pelos partidos de esquerda serem cooptados, mas mais porque as preocupações das pessoas estão fragmentadas em toda uma gama de questões diferentes. Algumas pessoas se preocupam com ecologia, outras com aspectos diferentes de uma cultura e assim por diante. Assistimos a uma fragmentação das questões, algo que, na prática, significa que menos energia é investida na questão única: a política. É muito difícil incluir todas essas questões em dois pacotes coerentes.
Diz-se com frequência que o mundo está mais complicado do que era. O que há de novo na situação atual?
Na época áurea da social-democracia, havia o entendimento de que duas filosofias diferentes amarravam todas essas questões – uma delas baseada na igualdade e outra no livre mercado e em determinados privilégios. Quase todo mundo aceitava que cada uma dessas questões poderia ser tratada de maneira diferente, dependendo da filosofia à qual cada um aderia. Nem sempre era esse o caso, mas a percepção geral de que as coisas eram assim era muito forte.
Assim que a classe trabalhadora passou a ganhar mais poder de compra – estamos falando agora dos anos 1950 e 1960 na Europa Ocidental –, quando ela passa a ganhar acesso ao que antes era reservado unicamente à classe média (como a casa própria), essa situação começou a ruir. Ocorreu, então, essa fragmentação de questões que agora esperamos que nossos governos enfrentem.
A sociedade democrática poderia concebivelmente funcionar assim, não fosse por duas coisas. A primeira é que as pessoas estão se omitindo da participação política; a segunda é que surgem novas ilusões. A outra característica da mudança é a passagem para o “infoentretenimento” no capitalismo de consumo tardio: as pessoas consomem notícias como entretenimento.
Produtos de mídia fazem parte do sistema capitalista: a mídia busca o lucro para si, mas, ao mesmo tempo, precisa estar do “lado certo”. Todas as grandes empresas se anunciam dessa maneira.
O senhor diria que as necessidades do consumidor são criadas pelo mercado e que, de algum modo, nossas vidas já foram vendidas?
Acho que isso é verdade com relação a muitos pontos, mas não tantos quanto as pessoas de esquerda tendem a pensar. É claro que as coisas que desejamos às vezes são geradas por imagens de publicidade e assim por diante.
Mas o fato de não procurarmos os artigos de primeira necessidade e sim desejarmos coisas novas, produtos novos, é algo que está relacionado ao desenvolvimento da economia e que começa em diferentes momentos em diferentes sociedades.
Até os anos 1940, a imensa maioria dos moradores da zona rural não tinha a expectativa de viver melhor do que seus pais e avós. As pessoas queriam apenas conservar o que tinham: ser donas de seu sítio e assim por diante. É também assim que as pessoas viviam na Polônia até pouco tempo atrás.
Mas, com a chegada do capitalismo moderno de consumo, surgem expectativas de tipo completamente distinto: vou viver melhor que meus pais, meus filhos vão viver melhor do que eu, etc. A divisão entre luxo e necessidade perde nitidez e se desloca; hoje a televisão é uma necessidade, não apenas um luxo. E isso é um novo conjunto de expectativas que acompanha o sucesso do capitalismo industrial.
Por que as pessoas não querem mais viver suas vidas de acordo com uma religião ou qualquer outra coisa, a não ser a escolha do consumidor?
Isso significa presumir que o consumo de fato tome o lugar de algo significativo na vida das pessoas. Pode acontecer, e é uma situação muito lamentável, mas muitas pessoas estão crescendo com o sonho de tornar-se médicos, trabalhar para os Médicos sem Fronteiras e coisas ótimas assim.
Ao mesmo tempo, contudo, estão focadas nesse mundo do consumo. Uma parcela muito pequena de pessoas opta por retirar-se completamente, viver em comunidades e assim por diante. Na vida de cada um de nós existe algum tipo de equilíbrio, mas, quando você agrega tudo, isso pode acabar revelando-se muito nocivo à democracia.
Assim, se eu encontro sentido em minha vida sendo médico, você encontra sentido em sua vida escrevendo um romance, ela encontra sentido na vida dela… Mas essas atividades com sentido não se unem no domínio político, como acontecia nas carreiras profissionais nas velhas social-democracias. Naquela época, as pessoas enxergavam a política como algo importante, de modo que suas atividades eram voltadas a algum tipo de solidariedade. E hoje, para muitíssimas pessoas, parece não ser mais o caso.
É claro que existem ilhas onde a tradição e Deus ainda dão sentido às vidas das pessoas e onde é possível criar uma comunidade da maneira tradicional; mas o resto da população é sujeita ao mercado ou à lógica dele. A outra coisa é que os laços sociais estão se desintegrando. Contudo, o senhor afirma que as pessoas não deixam de viver vidas com sentido: podem ser bons médicos, podem ser pessoas boas sem Deus ou sem outras pessoas…
Ou, ainda, sem sociedade. Só posso ser um bom médico porque aprendi coisas com outros médicos. Só posso ser um bom escritor quando tenho leitores e outros escritores com os quais trocar ideias. Quanto às questões espirituais, elas simplesmente deixaram de ser uma questão nacional; pertencem a algumas pessoas que têm sentimentos espirituais, que podem formar grupos religiosos e assim por diante. Mas a questão é como isso está relacionado à sociedade política.
Talvez não precisemos mais de democracia?
Bem, não podemos ficar sem ela porque nossas vidas são dominadas pelo poder político.
Mesmo assim, damos preferência à autopreservação e à segurança em detrimento da participação e de todos aqueles velhos modos de vida. Talvez não queiramos nos engajar, pois, embora saibamos que seria melhor sermos cidadãos ativos, o medo do que aconteceu no século 20 prevalece – de modo que preferimos a segurança e a autopreservação.
Sim, isso poderia ser uma explicação da reação, mas é um equívoco. Estamos vivendo em estruturas que exigem a autoridade política, que requerem que as leis sejam obedecidas. Até mesmo o contexto geral do mercado precisa ser baseado nisso. Mas, se não ficarmos atentos a como isso está mudando, pode tornar-se algo tremendamente destrutivo. Grupos pequenos poderão nos conduzir para guerras, como foi o caso no Iraque. Caso contrário, se permitirá que o sistema avance em uma direção em que não existe solidariedade, em que os laços sociais começam a se desfazer, em que nada é feito para fortalecê-los, onde, concretamente, algumas pessoas estão fadadas à miséria.
E também isso é degradante para o ambiente em que vivemos. A ideia de que seria possível simplesmente ignorar a política é uma ilusão. Outra maneira de dizer isso é afirmar que você só pode evitar a política se viver de carona. Se quero apenas escrever meus romances e se houver gente suficiente à minha volta com quem eu possa me engajar, então nada de ruim irá acontecer comigo ou com meus filhos. Mas, em uma situação assim, sou caroneiro – estou andando de carona na participação de outras pessoas. Se todo o mundo fizesse isso, as conseqüências seriam terríveis.
Mas, em uma sociedade dominada pelo mercado, há mais competição que solidariedade e a confiança está desaparecendo.
Não desisti disso, porque as pessoas ainda podem ter algum senso de solidariedade, nem que seja apenas a solidariedade internacional – por exemplo, fazerlevantamento de fundos para vítimas da fome ou de enchentes. Mas as pessoas também podem fazer isso em nível nacional, quando ocorre algum desastre.
Quando o senhor usou esse exemplo 20 anos atrás, muitas vezes escolhendo a ecologia ou os direitos humanos, era compreensível e convincente. Hoje, porém, podemos ver que mesmo as ideias verdes são sujeitas à lógica instrumental do mercado e que mesmo o estilo de vida ecológico está se tornando apenas mais uma forma de consumo. Todos os esforços para preservar a Terra não passam de mais um nicho no mercado.
Estão sem rumo, e esse é o problema. Veja os gases estufa, por exemplo. O que o Ocidente está tentando fazer é introduzir uma nova estrutura de consenso através do comércio de carbono. Você sabe do que se trata: você é autorizado a poluir apenas até certo grau, a não ser que compre permissão de outros que poluem menos.
O comércio de carbono gera incentivos tremendos para a introdução de tecnologias e energias mais verdes. Os incentivos são tamanhos que o mercado começa a trabalhar para você. As pessoas estão investindo dinheiro na energia verde, mas a decisão precisa ser tomada num nível político.
O que estamos vendo agora é que, em função dos republicanos loucos dos EUA, que têm a maioria no Congresso, a lei do comércio de carbono, que talvez pudesse ter sido aprovada nos dois primeiros anos da administração Obama, foi arquivada. E, pelo fato de os americanos não estarem fazendo nada, ninguém mais acha que precisa fazer alguma coisa, e consequências terríveis poderão advir disso. O mercado pode lidar com coisas desse tipo apenas quando é corretamente dirigido.
O senhor diria que ocorre hoje aquilo que Tocqueville chamou de “despotismo suave”?
Sim, mas apenas porque nós permitimos. As pessoas não estão presas a isso, como em uma armadilha. Mas sair disso requer novos tipos de mobilização e imaginação política. Dei muita ajuda à campanha de Obama porque achei que ela encerrava novos tipos de imaginação e mobilização, tanto em termos de técnica quanto de slogans e metas. Estou um pouco desapontado, porque o movimento se desfez em pouco tempo, as pessoas não entenderam inteiramente…
… Revoluções no Facebook?
Revoluções no Facebook podem ter um efeito imediato e podem ser realmente importantes, mas não são algo que se possa levar adiante, que possa servir de base para alguma coisa. Elas não produzem liga social.
O que produz liga social hoje? Como podemos gerar um sentido de solidariedade, coisa absolutamente necessária para qualquer movimento social ou para uma democracia?
Ainda há motivação potencial por aí. Se der uma olhada nas eleições, verá um senso forte de identidade nacional. Não há razão pela qual isso deva ser inteiramente capturado pela direita.
Mas por que o mito nacional está mais forte que o sentido de solidariedade ou até mesmo que a religião?
Acho que é porque as democracias foram erguidas sobre um forte sentimento de identidade comum: o povo polonês, o povo tcheco e assim por diante. Mas também acontece que o modo como se fazia oposição aos regimes autoritários no passado era através de laços de solidariedade. No caso da Europa, esses laços eram baseados principalmente na linguagem. Não é possível simplesmente reescrever a história e dizer “agora vamos ter uma identidade
europeia”. À medida que fomos criando o mundo moderno, foram essas identidades que se fortaleceram.
O lado positivo é o vínculo delas com a liberdade, com a democracia liberal. Assim, em muitos casos, para lançar um apelo à solidariedade é preciso lançar um apelo a essas identidades nacionais.
Mas me convença de que a popularidade do nacionalismo, do populismo de direita, de todas essas ideologias baseadas na etnicidade sejam algo mais que apenas um retorno à biologia…
Isso não corresponde à realidade. Se voltarmos ao nível individual, veremos que as pessoas têm significados de diferentes tipos. A questão é como criamos o laço entre esses diferentes significados, de modo que as pessoas sintam solidariedade, um certo vínculo com outras, algo que, por sua vez, leve a ações coletivas, ainda que os significados não sejam exatamente os mesmos. Sempre existe essa base possível. Não é verdade que todos nós tenhamos virado egoístas totais.
Não viramos?
Não, a maioria das pessoas não é assim. Se você analisar as pessoas uma a uma, elas na realidade não são nem um pouco assim. Isso é algo que Obama fez: lançou um apelo a algo que existia dentro de todos esses jovens, mostrando a eles que é possível haver uma vida política com mais significado.
O slogan “yes we can” apela para o sentimento de impotência que as pessoas têm no mundo político: gostaríamos de ter um mundo mais justo, mais ecológico, mas não sabemos mais como fazer para consegui-lo. O que Obama fez foi apelar para todas essas ambições morais fortes e dar às pessoas o sentimento de que sim, se nos unirmos, então…
Sim, mas o que dizer da substância? Ela ainda satisfaz?
Não é exatamente a substância que é o problema. Para ter capacidade de resistência, é preciso ter organização política. E a organização política de Obama, tão poderosa até novembro de 2008, se desmontou a partir do momento em que ele foi eleito.
Quando tínhamos alternativas claras, era possível optar por um modo de desenvolvimento social-democrático ou uma maneira mais liberal de fazer as coisas. Agora que essa diferença substancial deixou de existir, não é verdade que a opção que temos é entre “yes, we can” e “no, we can’t”? Não é a despolitização da política que produz essas escolhas?
Bem, não é possível levar uma campanha com uma plataforma baseada na ideia de que “esses sujeitos são idiotas”. É claro que eles são, mas não é possível basear uma campanha nisso.
Tradução de Clara Allain.
Fonte: Revista Cult
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