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segunda-feira, 2 de abril de 2018

A inteligência não é o fundo do nosso ser (Ortega y Gasset)

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A inteligência não é o fundo do nosso ser. Pelo contrário. É como uma pele sensível, tentacular que cobre o resto do nosso volume íntimo, o qual por si é sensu stricto ininteligente, irracional. Barrès dizia isto muito bem: L'intelligence, quelle petite chose à la surface de nous. Aí está ela, estendida como um dintorno sobre o nosso ser mais interior, dando uma face às coisas, ao ser - porque o seu papel não é outro senão pensar as coisas, pensar o ser, o seu papel não é ser o ser, mas reflecti-lo, espelhá-lo. Tanto não somos ela que a inteligência é uma mesma em todos, embora uns dela tenham maior porção que outros. Mas a que tiverem é igual em todos: 2 e 2 são para todos 4. Por isso Aristóteles e o averroísmo acreditaram que havia um único noûs ou intelecto no Universo, que todos éramos, enquanto inteligentes, uma só inteligência. O que nos individualiza está por trás dela. 
Mas não vamos agora espicaçar uma tão difícil questão. Baste o que foi dito para sugerir que em vão pretenderá a inteligência lutar num matchde convicção com as crenças irracionais, habituais. Quando um cientista sustém as suas ideias com uma fé semelhante à fé vital, duvida da sua ciência. Numa obra de Pío Baroja, uma personagem diz a outra: «Este homem acredita na anarquia como na Virgem do Pilar»; o que é comentado por uma terceira: «Em tudo o que se acredita se acredita igualmente». 
Do mesmo modo, sempre a fome e sede de comer e beber será psicologicamente mais forte, terá mais energia bruta psíquica que a fome e a sede de justiça. Quanto mais elevada for uma actividade num organismo, é menos vigorosa, menos estável e eficiente. As funções vegetativas falham menos que as sensitivas, e estas menos que as voluntárias e reflexivas. Como dizem os biólogos, as funções adquiridas ultimamente, que são as mais complexas e superiores, são as que primeiro e mais facilmente são perdidas por uma espécie. Em outros termos: o que vale mais é o que está sempre em maior perigo. Num caso de conflito, de depressão, de paixão sempre estamos prontos a deixar de ser inteligentes. Dir-se-ia que levamos a inteligência presa com um alfinete. Ou dito de outra maneira: o mais inteligente é-o... às vezes. E o mesmo poderíamos dizer do sentido moral e do gosto estético. Sempre no homem, por sua própria essência, o superior é menos eficaz que o inferior, menos firme, menos capaz de se impor. 

Ortega y Gasset, in 'O Que é a Filosofia?'

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Direito e Justiça: Jacques Derrida

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Jacques Derrida - filósofo francês (*1930 +2004)

"A justiça nunca é esgotada pelas representações e pelas instituições jurídicas que tentam ajustar-se a ela. O justo transcende sempre o jurídico, certamente, mas não existe justiça que não deva inscrever-se num direito, num sistema e numa história da legalidade, na política e no Estado. Mesmo que, por sua vez, o direito prime pela força, se esse é seu dever, não há direito que não implique nele mesmo o poder de usá-la, uma técnica, pois, e a possibilidade da guerra. Não há direito sem constrangimento, lembra Kant. Aquilo que pretende ter força de lei inscreve, portanto, o apelo à força no próprio conceito de sua autoridade. O risco de tirania não espera mais, ele espreita na origem da lei. Ele vela sobre sua consequência, sobre aquilo que Pascal chama, num pensamento tão conhecido mas  tão enigmático, o seguimento: Justiça , força.  - É justo que o que é justo seja seguido, é necessário que o que é mais forte seja seguido. A justiça sem força é impotente; a força sem a justiça é tirânica [...]. É preciso, pois, colocar juntas a justiça e a força..." (Jacques Derrida, num excerto da obra "Força de lei")

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Citação do dia: José Ortega y Gasset

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José Ortegay Gasset (filósofo espanhol - *1883 +1955)


"A vida é um drama porque a vida, individual ou coletiva, pessoal ou histórica, é a única entidade do universo cuja substância é o perigo. Compõe-se de peripécias. É, rigorosamente falando, drama. 
Nós não nos demos a vida, mas esta nos é dada; encontramo-nos nela sem saber como nem por quê; mas do fato de que ela nos é dada resulta que temos de fazê-la nós mesmos, cada um a sua."

domingo, 3 de janeiro de 2016

Citação do dia - Michel Foucault

Michel Foucault - filósofo francês

Não se deveria dizer que a alma é uma ilusão, ou um efeito ideológico, mas afirmar que ela existe, que tem uma realidade, que é produzida permanentemente, em torno, na superfície, no interior do corpo pelo funcionamento de um poder que se exerce sobre os que são punidos - de uma maneira mais geral sobre os que são vigiados, treinados e corrigidos, sobre os loucos, as crianças, os escolares, os colonizados, sobre os que são fixados a um aparelho de produção e controlados durante toda a existência (...) Esta alma real e incorpórea não é absolutamente substância; é o elemento onde se articulam os efeitos de um certo tipo de poder e a referência de um saber, a engrenagem pela qual as relações de poder dão lugar a um saber possível e o saber reconduz e reforça os efeitos de poder. Sobre essa realidade-referência, vários conceitos foram construídos e campos de análise foram demarcados: psique, subjetividade, personalidade, consciência, etc.; sobre ela técnicas e discursos científicos foram edificados; a partir dela, valorizaram-se as reivindicações morais do humanismo. Mas não devemos nos enganar: a alma, ilusão dos teólogos, não foi substituída por um homem real, objeto de saber, de reflexão filosófica ou de intervenção técnica. O homem de que nos falam e que nos convidam a liberar já é em si mesmo o efeito de uma sujeição bem mais profunda do que ele. Uma "alma" o habita e o leva à existência, que é ela mesma uma peça no domínio exercido pelo poder sobre o corpo. A alma, efeito e instrumento de uma anatomia política; a alma, prisão do corpo. (FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: história da violência nas prisões. 13. ed. Petrópolis: Vozes, 1987, pp. 31-32)