Gadamer introduz em que consiste a arte e a técnica. Tal como os entendemos hoje, trata-se de um significado muito recente.
domingo, 6 de setembro de 2015
Hans Georg Gadamer - El cambio en la imagen de la muerte (subtitulado español)
Gadamer explica as mudanças que tem sofrido a visão da morte no Ocidente. Começa pela Antiga Grécia: a lenda de Prometeu é um ponto chave. Em nossa sociedade pós-iluminista a morte tem sofrido uma desmitologização, mas mas continua aí como a grande interrogação e a chave de compreensão.
domingo, 9 de agosto de 2015
Marwan Rashed - Qu'est ce que la philosophie antique ?
Marwan Rashed, professeur de philosophie, de paléographie et de grec ancien, pose la question de la pluralité de la philosophie antique en présentant son histoire.
Postado originalmente em Philosophie magazine
Postado originalmente em Philosophie magazine
segunda-feira, 20 de julho de 2015
As imagens do filósofo na arte de Rembrandt (por Rogerio Rocha)
Por Rogerio Henrique Castro Rocha
| "Rembrandt Harmenszoon van Rijn - Self-Portrait - Google Art Project" |
Hoje trago para vocês algumas impressões a respeito de uma relação que sempre dá o que pensar: aquela que existe entre arte e filosofia.
As conexões existentes entre essas duas formas de expressão da criatividade humana são responsáveis por incontáveis polêmicas, análises e teorias.
Afinal tratam-se de dois campos do conhecimento que, ao longo de suas histórias, tem dialogado constantemente, dando lugar a grandes debates.
No mais, a conexão entre filosofia e arte (no caso em apreço as artes plásticas), no plano do que elas podem nos oferecer de melhor, enquanto objetos de fruição estética e reflexão crítica, rendem momentos fabulosos.
Para tentar lhes mostrar um pouco disso, ou seja, de como funciona esse diálogo entre 'mundos', com suas lentes de aumento focadas sobre os muitos planos da existência (ora realidade, ora sonho, conceitos, símbolos), resolvi apresentar, a partir da análise de dois quadros de autoria do pintor e gravador holandês Rembrandt (1606-1669), algumas impressões acerca da relação entre arte e filosofia, sobretudo quanto à representação da imagem do filósofo em suas telas.
Afinal tratam-se de dois campos do conhecimento que, ao longo de suas histórias, tem dialogado constantemente, dando lugar a grandes debates.
No mais, a conexão entre filosofia e arte (no caso em apreço as artes plásticas), no plano do que elas podem nos oferecer de melhor, enquanto objetos de fruição estética e reflexão crítica, rendem momentos fabulosos.
Para tentar lhes mostrar um pouco disso, ou seja, de como funciona esse diálogo entre 'mundos', com suas lentes de aumento focadas sobre os muitos planos da existência (ora realidade, ora sonho, conceitos, símbolos), resolvi apresentar, a partir da análise de dois quadros de autoria do pintor e gravador holandês Rembrandt (1606-1669), algumas impressões acerca da relação entre arte e filosofia, sobretudo quanto à representação da imagem do filósofo em suas telas.
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| "O filósofo em meditação" (Rembrandt - 1632) |
No quadro acima, um dos mais famosos do talentoso pintor holandês, podemos ver retratada a figura de um homem idoso, sentado ao fundo, no canto de uma sala, próximo a uma mesa e à janela da casa.
Pela janela entra furtivamente a luz do sol, que recai por sobre parte do ambiente, nos deixando ver a figura de um ancião (o filósofo), de alguns poucos elementos que compõem a cena e de uma segunda figura humana (uma senhora ou serviçal) próximo à lareira, onde alimenta o fogo sem preocupar-se com a presença do outro personagem.
Pois bem, então vejamos: quem é o centro da representação artística de Rembrandt? O homem que ocupa seu lugar de forma reservada, em situação de destaque, banhado pela luz solar que adentra a sala. Esse é o filósofo. O filósofo em seu ser mais constante, isto é, em sua condição primordial: a condição do meditar.
A cena retrata-o em estado de profunda imersão. Imersão em seus próprios pensamentos, voltado para dentro de si, alheio ao que lhe passa ao redor naquele instante, como que a buscar em outro lugar o que ali não se encontra.
A imagem que então percebemos é a de um homem velho. A figura da experiência, da sabedoria, o retrato do pensador como um homem recluso, alheio ao que lhe é externo (o filósofo não se volta para a luz da janela, mas para o íntimo do escuro cômodo), voltado para dentro de si e envolto nas mais profundas reflexões, quase como que num pequeno transe. Vejam, portanto, como Rembrandt magistralmente compôs a cena. Um leve efeito de mistério e intimidade obtido com a luz e a sombra (a técnica do chiaroscuro, amplamente dominada pelo mestre espanhol Caravaggio), o uso de apenas quatro cores (variando entre o branco, o preto, o marrom e um amarelo terroso). Se voltarmos por mais um instante as nossas atenções à referida cena, poderemos verificar também a existência de uma pequena porta de madeira à esquerda do filósofo (por conseguinte, à direita dele, quando tomada a perspectiva de quem observa o quadro). E mais à direita, em espiral, uma escada, também de madeira, que leva a um aposento ou andar superior, cuja entrada não nos é dada a ver, visto que, neste ponto, a cena é de novo tomada pela escuridão. No patamar mais elevado, simbolizado aqui pelo piso superior, cujo acesso se dá pela escada em caracol, temos o mundo das ideias, do conhecimento, do saber, ainda inóspito, não revelado, e onde só se chega após despender-se um certo esforço (do intelecto) que supera os problemas que se apresentam (ao galgar os degraus ou patamares da escada). Há nesses dois planos, implícita, uma ideia de alto e baixo, daquilo que ascende e do que descende, do superior e do inferior. Ademais, se prestarmos bem atenção, analisando novamente a imagem pintada por Rembrandt, temos que a luz que mais fortemente domina a cena é a que vem de fora da casa, que entra pela janela e ilumina a pessoa ensimesmada do velho sábio. Sua função acaba sendo como que a de delimitar ao observador do quadro que é nele, isto é, no homem que simboliza a sabedoria do pensamento reflexivo, que mora a luz do conhecimento. É ele que traz luz à cena (luz esta que supera, em muito, o brilho quase imperceptível da fogueira a ser acesa pelas mãos da serviçal, agachada no canto oposto da sala). Logo, o admirável pintor holandês sintetiza nesta obra, possivelmente, a imagem mais marcante e famosa que se fez vincular à filosofia: a da atividade do pensar. E nos acena também para a conclusão de que o pensar requer um recolhimento necessário. Recolhimento que repousa no movimento interno das ideias, que ilumina a vida com aquilo que desvela. ![]() |
| "O filósofo com o livro aberto" - (Rembrandt - 1648) |
Com a mesma maestria, Rembrandt retorna ao tema, como que numa sequência tardia, em uma tela do ano de 1648. Esse novo quadro assinala não só o seu interesse pela figura dos homens de pensamento, como também faz uma verdadeira retomada da cena exposta na tela "O filósofo em meditação", que anteriormente analisamos.
O detalhe agora, porém, na sutileza do seu estilo, e que nos chama atenção, é que vemos quase que a mesma cena da obra anterior, só que por um ângulo ou plano inverso. Os elementos de composição técnica do quadro anterior estão praticamente todos lá. O velho filósofo, pensativo, absorto em suas meditações, a janela pela qual se vê adentrar ao recinto a claridade da luz do sol, a mesa... até mesmo o velho livro aberto.
Entretanto (e aí está o plus dentro do cenário já familiar), desta vez o observador pode conhecer o restante da casa, saber que nela há outro aposento, uma porta, um corredor, encontrando um ambiente bem mais iluminado que o da obra que a antecedeu.
Ainda analisando o aspecto da retomada do tema, vê-se de novo a escada em espiral que leva ao andar de cima, envolto em escuridão. E o segundo plus presente nesta obra: o filósofo agora vislumbra o livro aberto, próximo à janela banhada de luz (na outra tela ele mirava o vazio dentro do aposento).
Ora, aqui não há mais, como antes, tantas sombras. A penumbra, a ambiência soturna e cavernosa da obra anterior parece ter se dissipado. A luminosidade do conhecimento inundou tudo, espraiando-se pelo espaço interno da sala, como se vê acima.
Desse modo, algo fez-se fenômeno, veio a lume, surgiu. Algo saiu de dentro dos pensamentos do velho pensador e fez-se verbo na realidade das letras e linhas do livro posto sobre a mesa. E o filósofo, na cena aqui tratada, se volta para a contemplação não só das próprias ideias, mas também do que lhe mostra a realidade.
Com estes dois quadros, portanto (na perspectiva desse diálogo que há entre arte e filosofia, entre imagem e pensamento, desse diálogo possível e necessário), Rembrandt nos ensina que ambas, arte e filosofia, são formas especiais de se olhar a mesma realidade. E ensina mais. Que juntas nos mostram uma maneira única de experimentar o mundo. As duas telas ora comentadas são, ao nosso entender, e acima de tudo, uma respeitosa homenagem de um mestre da expressão estética à filosofia enquanto máxima expressão da capacidade humana, simbolizada no seu ícone mais visível: o filósofo.
domingo, 17 de maio de 2015
NÓS, OS FABRICANTES DE SOLIDÃO
Por Mariana Ribeiro
Somos tão livres como nunca fomos. Pode-se escolher carreira, viagens, hobbies, pessoas. Acima de tudo pessoas. Pode-se trocar de carreira, de hobbies e de pessoas, o tempo todo. Por que o resultado disso não é maravilhoso? Por que os cidadãos da era tinder são tão solitários? Por que os pregadores do desapego nas redes sociais parecem tão felizes e divertidos por lá e na realidade estão em desespero, viciados em remédios? E de onde foi que eles saíram?
Estas pessoas são solitárias, não por que não socializem, não saiam com os amigos, não se divirtam. Elas fazem tudo isso e ainda têm um tinder que bomba. Mas não criam laços. Todas essas coisas e pessoas (excetuando um bom amigo ou outro) são efêmeras e desaparecem quando se está doente ou sem dinheiro. Puf!
O trabalho do sociólogo polonês Zygmunt Bauman nos emprestou as palavras para falarmos desse fenômeno social que estamos vivendo.
As explicações sobre a atual liquidez de tudo vieram a calhar, para aqueles que têm a coragem de admitir e que têm interesse no que se passa ao nosso redor. Em trabalhos como: “modernidade líquida” e “amor líquido” encontram-se temas chave que nos ajudam a nos situar no caos moderno. Tais como: a perda de espaço e tempo implicados pelo avanço tecnológico, a fragilidade dos laços humanos, a substituição de relações presenciais por on-line e etc.
Mas este artigo não é para falar de Zygmunt e sim para entendermos através do embasamento que seu trabalho nos oferece, como nos tornamos fabricantes de solidão e legitimadores da mesma.
Quando falo do que “vivemos hoje”, não é por empatia com tempos passados, falo do fenômeno social ocorrido como consequência de avanços tecnológicos e culturais, principalmente a ideologia moderna da “liberdade”. A ideia de ser livre e de poder fazer o que quiser, a desconstrução de valores, que agora são extremamente relativos.
Você começa uma família se quiser e quando quiser, você tem filhos se quiser, você viaja para onde quiser, você não precisa se relacionar com o sexo oposto, você é livre! Estamos todos inseridos na cultura do respeito às diferenças. E tudo isso são avanços inegáveis, mas ainda não estamos no paraíso por quê?
Todos os nossos avanços vieram acompanhados de evoluções tecnológicas que nos tiraram a noção de espaço e tempo interligados, como disse Bauman: “O tempo se tornou dinheiro depois de se ter tornado uma ferramenta (ou arma?) voltada principalmente a vencer a resistência do espaço: encurtar as distâncias, tornar exequível a superação de obstáculos e limites à ambição humana.” (BAUMAN, Modernidade Líquida, 2001, p.130)
Está dada a largada então, para a conquista de espaço no menor tempo possível e os competidores são, as um dia crianças, ensinadas que podiam ser o que quisessem. E isso é o que importa agora, sucesso financeiro, aquisição de espaço, ambição. Laços de afeto e a espiritualidade são complementos necessários na vida de um cidadão moderno, saudável e bem-sucedido, mas apenas complementos. E é muito bom que todos tenham esses complementos, assim como carimbos no passaporte. E o ideal é que sejam colocados em um futuro seguro e incerto (porque nada é certo), onde não possam afetar suas prioridades de carreira e dinheiro.
É preciso um espaço só seu para se concentrar nas prioridades, para focar e competir no dia a dia com máxima eficiência. Cria-se uma bolha.
E de dentro das bolhas do individualismo olha-se para fora, para uma imensidão de possibilidades. As redes sociais disseminam a sensação de que há uma infinidade de pessoas a nossa volta, todas legais e felizes, tentando parecer mais bonitas e mais felizes que outros. Todas postando seus momentos de alegria e sucesso. Cria-se um ideal inalcançável, pois é atualizado o tempo todo nas redes. Então cá no nosso dia a dia como escolher alguém?
Com uma escolha feita parece-se estar perdendo tanto! Como amar alguém e perder as experiências maravilhosas com as pessoas maravilhosas que lotam o facebook e o instagram?
Além disso, as pessoas presenciais são humanas e falhas, dão trabalho e nunca correspondem ao ideal disseminado pelas redes. E aí é que são descartadas e trocadas por outras. Sempre na compulsão de tentar de novo, de achar a pessoa certa, que “cabe no sonho”, como disse Cazuza. É muito fácil dizer que não deu certo e se desprender de responsabilidades na tentativa, dizer: “é a vida”.
E volta-se para casa só e começa-se tudo de novo amanhã.
Fazemos-nos todos descartáveis e reclamamos quando somos descartados, reclamamos da solidão dentro da bolha. Coloca-se a culpa num mundo louco e insensível, quando nós somos o mundo. E a coisa real que todos compartilhamos no fim das contas é a solidão. Ninguém está realmente lá, todos estão indo e vindo. Bauman explica o fenômeno dos laços frouxos e repetitivos que fazemos:
O cidadão de nossa líquida sociedade moderna — e seus atuais sucessores são obrigados a amarrar um ao outro, por iniciativa, habilidades e dedicação próprias, os laços que porventura pretendam usar com o restante da humanidade. Desligados, precisam conectar-se... Nenhuma das conexões que venham a preencher a lacuna deixada pelos vínculos ausentes ou obsoletos tem, contudo, a garantia da permanência. De qualquer modo, eles só precisam ser frouxamente atados, para que possam ser outra vez desfeitos, sem grandes delongas, quando os cenários mudarem — o que, na modernidade líquida, decerto ocorrerá repetidas vezes. (BAUMAN, Amor Líquido, 2004, p.6)
As consequências da liberdade são assustadoras. Ela é um fenômeno que a maioria ambiciona entender, uma fonte de prazeres e dores de que ninguém abre mão. Talvez todos pensem entender a liberdade, pois têm um conceito individual da mesma, mas ela está acima das ideias.
A liberdade é acima de tudo ambígua. Zygmunt diz que nenhuma sociedade conseguiu ainda o equilíbrio entre segurança e liberdade, se estamos seguros somos escravos e se estamos livres, não temos segurança. Estamos mais para o segundo caso, somos livres, mas temos tudo líquido a nossa volta, nada seguro.
E quem vai ter a coragem de construir um relacionamento seguro abrindo mão da sua liberdade pessoal? Esta pseudo-liberdade de fazer tantas coisas que não darão frutos e que oferece momentos de inserção na ideia atual de felicidade.
E ainda, quem serão os mais que corajosos a investir em algo sólido, com laços afetivos, confiança, lealdade e durabilidade, com dores e prazeres a longo prazo, quando o resto do mundo irá considerá-los fora de moda e sem ambição?
Talvez, por isso, é que nem mesmo pessoas totalmente conscientes dessa realidade conseguem criar laços duradouros, afinal, é suicídio social ser fora de moda e sem ambição.
E como diz Bauman: “Sem humildade e coragem não há amor. Essas duas qualidades são exigidas, em escalas enormes e contínuas, quando se ingressa numa terra inexplorada e não-mapeada. E é a esse território que o amor conduz ao se instalar entre dois ou mais seres humanos.” (BAUMAN, Amor líquido, 2004, p.12).
Como já foi dito, os planos de formar família ou mesmo um relacionamento duradouro são colocados num futuro incerto e distante, “vou querer quietar um dia”, ouve-se muito isso. As pessoas acreditam estar aprendendo com suas experiências de amores líquidos, ficadas e rolos, para um dia aplicar a um relacionamento que já vem sendo idealizado, mais inalcançável depois de cada experiência, obtida com pessoas defeituosas, de forma que se exige mais e mais daquela que seria a certa.
É um erro acreditar que a experiência de se relacionar superficialmente irá gerar experiência para um relacionamento duradouro. Relacionar-se superficialmente ensina a ser cada dia melhor nisso, enquanto a experiência de fazer durar só se adquire fazendo durar. Sobre isso Bauman diz:
Essa é, contudo, outra ilusão... O conhecimento que se amplia juntamente com a série de eventos amorosos é o conhecimento do “amor” como episódios intensos, curtos e impactantes, desencadeados pela consciência a priori de sua própria fragilidade e curta duração. As habilidades assim adquiridas são as de “terminar rapidamente e começar do início” [...] Guiado pela compulsão de tentar novamente, e obcecado em evitar que cada sucessiva tentativa do presente pudesse atrapalhar uma outra no futuro... (BAUMAN, Amor Líquido, 2004, p.11)
Toda essa cultura e essa vivência de correr atrás do vento fabricam solidão e não daquele tipo que se precisa de vez em quando, mas de um tipo disfarçado e disseminado, que está nas nossas músicas e filmes, está nas redes e na moda, está no estilo de vida e tem corroído por dentro a fé da humanidade na humanidade.
Quem não viu o primeiro episódio do famoso seriado Americano, Sex And The City, baseado no livro de Candace Bushnell? A narração de Carrie Bradshaw que abre o seriado:
Bem-vinda à época da não-inocência [...] Autopreservação e fazer bons negócios são mais importantes. O cupido voou do pedaço. Como diabos viemos parar nessa bagunça? Há milhares de mulheres nessa situação, todos as conhecemos e concordamos que são ótimas. Elas viajam, pagam impostos, pagam 400US$ em um par de sandálias Manolo Blahnik e são solitárias.
Quem não viu o filme Her, e acompanhou a maneira fácil e a gradual com que o personagem Theodore se apaixona por um programa de inteligência artificial, chamado Samantha, criado para ajudar usuários a se organizarem em suas vidas online? A ex-esposa de Theodore diz a ele:
É o que você sempre quis. Ter uma esposa sem o desafio de ter que lidar com algo real.
Se quisermos alterar essa realidade, será preciso parar a corrida em diversos momentos e olhar para o outro, desobrigando-o de ser fantástico, pois ele não é um filme ou seriado, é um ser humano. E o outro ser humano é o único que pode corresponder com a companhia que nós, por natureza, necessitamos.
Desculpe, também não é seu cachorro!
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terça-feira, 5 de maio de 2015
Existentialist Values (by Robert Goodwin Olson)

“... Almost without
exception the biographies of the great philosophers of the past reveal poignant
personal tragedies. At an early age Plato was forced to abandon the political
career for which he was by birth and social status destined, to sustain the
loss through execution of his master and friend Socrates, and to go into exile
from his beloved Athens. Later, his one practical political adventure, an
effort to establish a sound and stable government in Syracuse, was a dismal
failure. Epictetus was not only a slave by birth but was also lame. Spinoza was
excommunicated from the Jewish community in Amsterdam where he had passed his
early life, was obliged to earn his living in the tedious occupation of lens
grinder, and died relatively young of consumption. Hegel was slow to mature as
a philosopher, and although he finally achieved great popularity, his climb up
the academic ladder was extremely laborious and frustrating. In his student
days he was even subjected to the indignity of being told that he had no
aptitude for philosophy.
Each of these men had
strong personal reasons for doubting the possibility of self-fulfillment
through wealth, fame and pleasure; and behind an often cold and impersonal mask
traces of disappointment and bitterness are clearly discernible. If the die-hard
ordinary man so choose, he could perhaps make out a plausible interpretation of
the traditional philosophers’ value orientations as so many instances of sour
grapes. The fact remains, however, that in the official expression of their
ideas traditional philosophers tended to regard the values which they
substituted for those of the ordinary man as sufficient to a complete and fully
satisfying life. The sense of tragedy haunts their systems, but it does not
ordinarily enter into them.”
(OLSON, Robert Goodwin. An
introduction to existentialism. New York: Dover Publications, 1962, p. 13)
terça-feira, 21 de abril de 2015
A arte de escrever para idiotas (por Marcia Tiburi)
Reproduzo aqui um texto de autoria da filósofa brasileira Marcia Tiburi que merece a nossa leitura e reflexão.
Para aqueles que não lerão este artigo
Em nossa cultura intelectual e jornalística surge uma nova forma retórica. Trata-se da arte de escrever para idiotas que, entre nós, tem feito muito sucesso. Pensávamos ter atingido o fundo do poço em termos de produção de idiotices para idiotas, mas proliferam subformas, subgêneros e subautores que sugerem a criação de um nova ciência.
Estamos fazendo piada, mas quando se trata de pensar na forma assumida atualmente pela “voz da razão” temos que parar de rir e começar a pensar.
Artigos ruins e reacionários fazem parte de jornais e revistas desde sempre, mas a arte de escrever para idiotas vem se especializando ao longo do tempo e seus artistas passam da posição de retóricos de baixa categoria para príncipes dos meios de comunicação de massa. Atualmente, idiotas de direita tem mais espaço do que idiotas de esquerda na grande mídia. Mas isso não afeta em nada a forma com que se pode escrever para idiotas.
Diga-se, antes de mais nada, que o termo idiota aqui empregado guarda algo de seu velho uso psiquiátrico. Etimologicamente, “idiota” tem relação com aquele que vive fechado em si mesmo. Na psiquiatria, a idiotia era uma patologia gravíssima e que, em termos sociais, podemos dizer que continua sendo.
Uma tipologia psicossocial entra em jogo na história, baseada em dois tipos ideais de idiotas: o idiota de raiz, dentre os quais se destaca a subcategoria do idiota representante do conhecimento paranoico, e o neo-idiota, com destaque para o “idiota” mercenário que lucra com a arte de escrever para idiotas.
Vejamos quem são:
1- O Idiota de raiz é fruto de um determinismo: ele não pode deixar de ser idiota. Seja em razão da tradição em que está inserido ou de um déficit cognitivo, trata-se de um idiota autêntico.
O Idiota de raiz divide-se em três subtipos:
1. 1 – Ignorante orgulhoso: não se abre à experiência do conhecimento. Repete clichês introduzidos no cotidiano pelos meios de informação que ele conhece, a televisão e os jornais de grande circulação, em que a informação é controlada. Sua formação é “midiatizada”, mas ele não sabe disso e se orgulha do que lhe permitem conhecer. No limite, o ignorante orgulhoso diz “sou fascista”, sem conhecer a experiência do fascismo clássico da década de 30 e o significado atual da palavra, assim como é capaz de defender sem razoabilidade alguma ideias sobre as quais ele nada sabe. Um exemplo muito atual: apesar da violência não ter diminuído nos países que reduziram a maioridade penal, a ignorância da qual se orgulha o idiota, o faz defender essa medida como solução para os mais variados problemas sociais. Ele se aproxima do “burro mesmo” enquanto imita o representante do conhecimento paranoico, apresentados a seguir.
1.2 – “Burro mesmo”: não há muito o que dizer. Mesmo com informação por todos os lados, ele não consegue juntar os pontinhos. Por exemplo: o “burro mesmo” faz uma manifestação “democrática” para defender a volta da ditadura. Para bom entendedor, meia palavra…
1.3 – Representante do conhecimento paranoico: tendo estudado ou sendo autodidata, o representante do conhecimento paranoico pode ser, sob certo aspecto, genial. Freud comparava, em sua forma, a paranoia a uma espécie de sistema filosófico. O paranoico tem certezas, a falta de dúvida é o que o torna idiota. Se duvidasse, ele poderia ser um filósofo. O conhecimento paranoico cria monstros que ele mesmo acredita combater a partir de suas certezas. O comunismo, o feminismo, a política de cotas ou qualquer política que possa produzir um deslocamento de sentido e colocar em dúvida suas certezas, ocupa o lugar de monstro para alguns paranoicos midiaticamente importantes.
Curioso é que o representante do conhecimento paranoico pode parecer alguém inteligente, mas seu afeto paranoico o impede de experimentar outras formas de ver o mundo, abortando a potência de inteligência, que nele é, a todo momento, mortificada. Isso o aproxima do “ignorante orgulhoso” e do “burro mesmo”.
Em termos vulgares e compreensíveis por todos: ele é a brochada da inteligência.
2 – O neo-idiota: o neo-idiota poderia não ser um idiota, mas sua escolha, sua adesão à tendência dominante, o coloca nesse lugar. Não se pode esquecer que, além de cognitiva, a inteligência é uma categoria moral. O neo-idiota não é apenas um idiota, mas também um canalha em potencial.
Há dois subtipos de neo-idiota:
2.1 – O “idiota” mercenário quer ganhar dinheiro. Ele serve aos interesses dominantes, mas é um idiota como outro qualquer, porque não ganha tanto dinheiro assim quando vende a alma.
Nessa categoria, prevalece o mercenário sobre o idiota. Por isso, podemos falar de um idiota entre aspas. Ganha dinheiro falando idiotices para os idiotas que o lerão. Seu leitor padrão divide-se entre o “burro mesmo” e o “idiota cool”. Ele escreve aquilo que faz o “burro mesmo” pensar que é inteligente. O idiota cool, por sua vez, se sente legitimado pelo que lê. O que revela a responsabilidade do idiota mercenário no crescimento do pensamento autoritário na sociedade brasileira. Apresentar Homer Simpson ou qualquer outro exemplo de “burro mesmo” como modelo ideal de telespectador ou leitor é paradigmático nesse contexto.
2.2 – O “idiota cool” lê o que escreve o idiota mercenário. Repete suas ideias na esperança de ser aceito socialmente. De ter um destaque como sujeito de ideias (prontas). Ele gosta de exibir sua leitura do jornal ou do blog e usa as ideias do articulista (do representante do conhecimento paranoico ou do idiota mercenário) para tornar-se cool. Ele segue a tendência dominante. Ao contrário do “burro mesmo”, nele sobressai o esforço para estar na moda. Como, diferentemente dos seus ídolos, ele não escreve em jornais ou blogs famosos, ele transforma o Facebook e outras redes sociais no seu palco.
Diante disso, temos os textos produzidos a partir da altamente falaciosa arte de escrever para idiotas. O sucesso que alcançam tais textos se deve a um conjunto de regras básicas. Identificamos dez, mas a capacidade para escrever idiotices tem se revelado engenhosa e não deve ser menosprezada:
1- Tratar como idiota todo mundo que não concorda com as idiotices defendidas. O texto é construído a partir do narcisismo infantil do articulista. O autor sobressai no texto, em detrimento do argumento. Assim ele reafirma sua própria imagem desqualificando a diferença e a inteligência para vender-se como inteligente.
2- Não deixar jamais que seu leitor se sinta um idiota. Sustentar idiotices com as quais o leitor (o burro mesmo, o ignorante orgulhoso e o idiota cool) se identifique, o que faz com que o mesmo se sinta inteligente.
3- Abordar de forma sensacionalista qualquer tema. Qualquer assunto, seja socialmente relevante ou não, acaba sendo tratado de maneira espetacularizada.
4- Transformar temas desimportantes em instrumentos de ataque e desqualificação da diferença. Por exemplo, a “depilação feminina” já foi um assunto apresentado de modo enervante, excitante, demonizante e estigmatizante. Nesse caso, o preconceito de gênero escondeu a falta de assunto do articulista.
5- Distorcer fatos históricos adequando-os às hipóteses do escritor. Em uma espécie de perversão inquisitorial, o acontecimento acaba substituído pela versão distorcida que atende à intenção do autor do texto para idiotas.
6- Atacar alguém. Este é um dos aspectos mais importantes da arte de escrever para idiotas. A limitação argumentativa esconde-se em ataques pessoais. Cria-se um inimigo a ser combatido. O inimigo é o mais variado, mas sempre alguém que representa, na fantasia do escritor, o ideal contrário ao dos seus leitores (os idiotas: o burro mesmo, o ignorante orgulhoso e o idiota cool).
7- Reduzir tudo a uma visão maniqueísta. Toda complexidade desaparece nos textos escritos para idiotas. O mundo é apresentado como uma luta entre o bem e o mal, o certo e o errado, o comunismo e o capitalismo ou Deus e o Diabo.
8- Desconsiderar distinções conceituais. Nos textos escritos para idiotas, conservadores são apresentados como liberais, comunistas são confundidos com anarquistas, etc.
9- Investir em clichês e ideias fixas. Clichês são pensamentos prontos e de fácil acesso. Sem o esforço de reflexão crítica, os clichês dão a sensação imediata de inteligência. Da mesma maneira, o recurso às ideias fixas é uma estratégia para garantir a atenção do leitor idiota (o burro mesmo, o ignorante orgulhoso e o idiota cool) e reforçar as “certezas” em torno das hipóteses do escritor (nesse particular, Goebbels, o chefe da propaganda de Hitler, foi bem entendido).
10-Escrever mal. A pobreza vernacular e as limitações gramaticais são essências na arte de escrever para idiotas. O leitor idiota não pode ser surpreendido, pois pode se sentir ofendido com algo mais inteligente do que ele. Ele deve ser capaz de entender o texto ao ler algo que ele mesmo pensa ou que pode compreender. Deve ser adulado pela idiotice que já conhece ou que o escritor quer que ele conheça.
(Para além do que foi identificado acima, fica a questão para quem deseja escrever para idiotas: como atingir a pobreza essencial na forma e no conteúdo que concerne a essa arte?)
A arte de escrever para idiotas constitui parte importante da retórica atual do poder. Saber é poder, falar/escrever é poder, e o idiota que fala e é ouvido, que escreve e é lido, tem poder. O empobrecimento do debate público se deve a essas “cabeças de papelão”, fato que é identificado tanto por pensadores conservadores quanto por progressistas.
O grande desafio, portanto, maior do que o confronto reducionista entre direita e esquerda, desenvolvimentistas e ecologistas, governistas e oposicionistas, entre machistas e feministas, parece ser o que envolve os que pensam e os que não pensam. Sem pensamento não há diálogo possível, nem emancipação em nível algum.
Se não houver limites para a idiotice, ao contrário da esperança que levou a escrever esse texto, resta isolar-se e estocar alimentos.
Fonte: Revista Cult Online
segunda-feira, 20 de abril de 2015
OS 3 GRANDES MOVIMENTOS DO DIREITO PENAL (por Rogerio Rocha)
Neste vídeo apresento as três principais correntes do pensamento do direito penal na atualidade, os aspectos que compõem seus fundamentos teóricos, com os modelos de sistema penal propostos pelos seus defensores. Os três movimentos apresentados são: o abolicionismo penal, o movimento Law and Order (Lei e Ordem) e o direito penal mínimo (ou do equilíbrio). Entenda o que pensam seus defensores e qual seria, para eles, a missão dos sistemas penais contemporâneos.
quarta-feira, 15 de abril de 2015
A ALEGORIA DA CAVERNA DE PLATÃO E O RITO DE INICIAÇÃO MAÇÔNICA NO GRAU DE APRENDIZ

POR ROGÉRIO HENRIQUE CASTRO ROCHA (M.:M.:)
A ALEGORIA DA CAVERNA DE PLATÃO E O RITO DE INICIAÇÃO
MAÇÔNICA NO GRAU DE APRENDIZ: UM ESTUDO COMPARATIVO
1 INTRODUÇÃO
O presente estudo tem por objetivo geral analisar
os
fundamentos simbólicos e filosóficos presentes no rito de iniciação do aprendiz maçônico,
abordando, reflexivamente, aspectos doutrinários envolvendo a figura do iniciado em seus primeiros
passos dentro da vivência efetiva da Instituição Maçônica, especialmente no que diz respeito aos regramentos dispostos no R.: E.: A.: A.:
Propõe-se ainda a
empreender breve análise comparativa entre
a Alegoria da Caverna de Platão, constante de sua obra “A República” (Livro VII) e a cerimônia de entrada do neófito no 1.º grau da maçonaria.
2 O neófito e
sua entrada no
mundo maçônico
Inicialmente, é importante ter em vista o contexto encontrado no
início da jornada do aprendiz na
caminhada
progressiva
e
ascensional de
nossa Emérita Ordem.
O aprendiz
maçom – é importante frisar – até bem pouco tempo,
antes de travar o seu primeiro contato com a Arte Real, era um completo profano. Ainda assim, mesmo imerso nos afazeres da vida mundana, tal
indivíduo trazia consigo,
dentre
outras tantas virtudes em potencial,
duas sem as quais não poderia aspirar sequer à condição de candidato: ser livre e
de bons costumes.
É por ser
portador destes imprescindíveis
requisitos que candidata-se, preenche sua proposta de admissão, passa pelo crivo do exame de seus futuros pares (sobretudo em face dos requisitos legais e morais que lhes são
exigidos), submete-se ao ritual iniciático da Cerimônia de Sagração ou Consagração (onde é investido na dignidade do grau) e, após passar por uma
série de provas em cerimonial, realiza, por fim, as ‘três viagens’
de
purificação
simbólica para passar da condição de homem profano à de homem maçom.
Como se sabe, porém, o aprendiz é um neófito, isto é, um iniciante, inexperiente ainda, seja num ofício, seja numa arte ou num saber. É alguém que
ignora
os conhecimentos mais
profundos, os detalhes mais complexos, os ditames mais
elevados a respeito de determinada técnica, assunto ou saber.
Para Jaime Pusch, citado pelo Irm.: Paulo Thomson de Lacerda, o
Grau de Apr.: M.: é
a fase purgativa e ativa da Iniciação. Neste Grau o M.: se dedica ao
aprendizado dos mistérios simbólicos básicos, leis, usos, costumes e história geral da Maç.:.
Trabalha na P.: B.:. Deve evoluir de homem
bruto, amorfo,
profano, o homem
polido, burilado, M.:. (A Trolha, Londrina, nº 308, p. 34, jun.
2012)
É, pois,
este
homem – recém-chegado das lides profanas e recém-nascido maçom, agora
inserido no ambiente cerimonioso e solene de uma Loja
ou
Oficina – a quem se denomina aprendiz.
Mas, afinal, em termos simbólicos, o que
representa
a Iniciação
Maçônica? E qual
relação existe entre esta e a alegoria do filósofo grego?
3 A alegoria da caverna em Platão: a transição humana da ignorância
ao saber
Analogicamente, o
melhor exemplo
para se compreender a trajetória maçônica
do aprendiz em
relação
ao simbolismo
do ritual de iniciação
encontra-se na famosa alegoria da caverna, descrita pelo filósofo grego Platão (séc.
V a.C.).
Trata-se de texto que se desenrola em forma de diálogo filosófico e
que possui extraordinária riqueza hermenêutica, dele se podendo
extrair várias perspectivas de leitura ou sentidos (pedagógico, ético, epistemológico, político,
metafísico, etc).
Nele Platão expõe, de
forma sistemática, o que seria para si o
modelo de estado ideal, bem assim toda a estrutura societária, moral e pedagógica que ajudariam a formar o rei-filósofo (governante da República) e os demais membros de cada classe social.
A República, portanto, encontra-se
fundada na crença permanente em que ninguém merece progredir dentro de
sua
sociedade senão
como
resultado de seus talentos, habilidades e, mais
importante de tudo, seu caráter. E para
isso, o processo de educação é basilar.
Presente no livro VII da obra “A República”, a alegoria da caverna
nos
descreve a cena em que homens, nascidos e acorrentados no interior de
uma
caverna, nela permanecem sem poder mudar de posição
e, portanto, sendo forçados a olhar somente para o fundo da caverna. Nessa parede veem, projetadas
pelo
sol que
adentra uma fresta de entrada, por detrás de um muro pequeno, as sombras e silhuetas de seres e objetos
que transitam no mundo exterior.
Na visão dos
prisioneiros, acostumados
à cegueira do ambiente cavernoso, tudo o que conseguiam admirar nas sombras lançadas sobre a parede à sua
frente constituía-se em realidade (o mundo verdadeiro). Do lado de fora, onde transitam pessoas carregando objetos de diversos tipos, o sol
brilha com intensidade.
Atrás dos cativos, no interior
das
trevas e abaixo do sol que invade a entrada superior da
caverna, uma fogueira que arde, também projetando
sombras ao interior do recinto.
Do mundo externo, ao qual ignoram por completo, também lhes vêm
os ecos de vozes, ruídos
e sons de toda ordem.
Familiarizados com a escuridão daquele
mundo interior, acreditam
piamente que tudo o que veem, ouvem e sentem trata-se da
mais fiel e única
realidade.
Supondo, entretanto,
que um dos cativos quebrasse seus grilhões e
enfim se voltasse para trás, transpondo o muro e alcançando a saída para o
mundo exterior, qual não seria sua surpresa ao deparar-se com o forte clarão da luz do sol, a qual
ofuscaria sua visão, tendo de acostumar-se primeiro, para só depois,
e gradualmente, divisar uma nova realidade que se descortinava a
sua
frente.
Tal homem, recém-saído da caverna, alcançaria a luz e
descobriria que o que pensava ser real não o era. A realidade verdadeira estava no mundo
externo, clareado pela fulgurante luz solar.
Por fim, entenderia o
ex-cativo ter vivido em um
mundo de ilusões, um mundo de aparências, mero
simulacro do real. E que doravante, com a ação que tomara, afastar-se-ia da ignorância e do erro para trilhar as sendas
da verdade, do
saber e
do conhecimento inteligível.
Como se pode depreender, a alegoria platônica, em seus múltiplos
contextos interpretativos, opera constantemente com a presença
de
dualismos
ou dicotomias (sabedoria e ignorância, aparência e realidade, trevas e luz,
mundo superior e mundo inferior, etc.). Elementos estes que, como veremos a seguir, também se refletem nas práticas
e simbolismos da iniciação maçônica.
4 Das sombras à luz:
o itinerário do aprendiz na iniciação
maçônica
A Iniciação Maçônica representa, em breves palavras, a Morte e a Ressurreição. A
morte das trevas, do obscurantismo em que se encontrava o neófito, e sua renascença para a Luz da Verdade.
A luz, tanto no mito platônico quanto na filosofia e simbolismo maçônicos, adquire vários significados, dentre eles o
de esclarecimento,
evolução, conhecimento, ingresso
no universo da
interioridade da busca
intelectual.
Não se pode esquecer, num paralelo
com a caverna,
que um dos
prisioneiros ascende à luz, ou seja, sai da gruta, desvencilhando-se de suas cadeias e curando-se de sua ignorância.
Ao “receber a luz”, quando lhe são desvendados
os
olhos, o iniciado
tem-lhe revelados os
mistérios do primeiro passo dado na seara do misticismo.
Como
bem nos lembra Rizzardo da Camino (Breviário maçônico. 6.ed. Madras: São Paulo, 2012, p.
326), “o
maçom e todos
nós, estamos na escuridão e
ansiamos pela Luz”.
Então, a partir dessa análise, podemos, desde já, perceber
os estreitos liames que enredam a trama tanto do iniciado maçônico – em seu
trajeto de passagem das celas, das masmorras, da prisão simbólica, da qual emerge ao final de sua sagração – quanto a do cativo da caverna platônica.
Assim como o prisioneiro da caverna, o candidato a maçom adentra o templo sem nada ver
nem
conhecer. Ingressa às escuras, olhos vendados,
não
conhece ninguém, não sabe o que lhe aguarda,
para onde será levado, o que irá acontecer daquele
momento em diante. Simbolicamente, entra-se em
outro mundo. Nos damos conta do quanto era vã a nossa existência, o quão pouco sabíamos das
coisas, dos outros e de nós mesmos.
Por horas a fio o iniciado permanece envolto em mistérios, sozinho,
consigo mesmo e com seus pensamentos. A angústia e o temor lhe invadem.
Dúvidas e inquietações lhe passam à mente. Impressões e sensações
a todo instante lhe assombram. Sons
próximos e ruídos distantes, vozes, um arrastar
de pés ou cadeiras, conversas, palavras ditas por pessoas que não sabe
ao certo quem são e com que propósito o cercam.
Nesse instante, uma jornada de interiorização se inicia. O candidato, ainda ‘imerso nas sombras’, à
espera do momento do início da
cerimônia, volta-se
para dentro de si mesmo, para sua caverna, nas ‘entranhas
da
terra’ onde ora habita, ‘prisioneiro’ de sua própria ignorância, ‘acorrentado’ aos seus vícios e paixões mundanas. Assim como o cativo da obra platônica, vive a ilusão de que a realidade é tal como se lhe parece.
Na Câmara de Reflexões, por breve período, a escuridão do ver lhe
é amenizada.
Em seu lugar surge, por sua vez, a gravidade das questões que lhes são lançadas, novamente a confrontá-lo com seus próprios pensamentos,
a inquirir seus princípios, suas ideias, seus medos, sua existência e sua
fortaleza espiritual.
Como nos
ensina a própria letra
do
rito do 1º grau, “o estado de cegueira, em que vos
achais,
é o símbolo do mortal que não conhece a estrada da Luz, que ides principiar a trilhar.” (Grande Oriente do Brasil.
Ritual do 1º
Grau: rito escocês
antigo e aceito. São Paulo, 2009, p. 106).
Ademais, a
analogia que aqui se tenta demonstrar
também é notada,
ainda no rito de iniciação, quando se faz menção à ligação existente entre o
simbolismo da 1ª prova, a da Terra, e a caverna onde estivera recolhido
o candidato, ao fazer
suas disposições. (Idem, Ibidem, p. 108)
Ao final
dessa jornada, consolidando a ideia aqui apresentada de
paralelismo entre elementos do mito da caverna em relação a determinadas
passagens dentro do ritual de iniciação maçônica, tem-se o momento áureo da
cerimônia de sagração: o “Fiat Lux”
(faça-se a luz ou que se lhe dê a luz).
A passagem das trevas à luz é uma alusão ao difícil trabalho de
construção e reconstrução que se fará
da
pedra bruta à pedra polida.
É o encerramento da travessia, o nascimento do novo homem.
No mito
platônico corresponderia ao instante em que se passa do
mundo sensível ao supra-sensível. Ou
seja, trata-se da caminhada ascendente entre o interior escuro da gruta e o seu exterior iluminado. Ou
como
bem assevera
o filósofo grego, em importante passagem da obra em
comento, que teríamos, em verdade, “a reorientação de uma mente de uma
espécie
de
crepúsculo para
a verdadeira luz
do
dia – e esta orientação é uma ascensão da realidade, ou em outras palavras – verdadeira filosofia.” (PLATÃO.
A República, 1997).
Representaria, portanto, a passagem da visão da sombra à visão do sol.
Do mundo cavernoso dos sentidos e falsas percepções à vida na pura luz, na dimensão
do
espírito;
como
que
um
libertar-se de
grilhões. Verdadeira conversão que se contempla e se completa
na verdade racional que se
manifesta à realidade.
Após tomar
consciência de suas falsas noções da realidade, o cativo/neófito nunca mais voltará
a conduzir
sua
vida do mesmo
modo.
Ele foi iluminado. Como sustenta
o Ir.: Stephen
Michalak, essa é a base de toda
iniciação. Mais ainda, pois consiste num processo que não acontece, como
pode por vezes parecer, apenas e tão-só em uma noite. Tal processo perdura por
todo o restante dos nossos dias.
A profunda riqueza do mito nos deixa entrever, pois, sem sombra de
dúvidas, elementos da caminhada maçônica.
Em
sua vertente especulativa,
vê-se a exigência de
uma busca pelo conhecimento e o combate incessante a toda forma de obscurantismo. Em sua vertente operativa, a necessidade de
que o saber
seja aplicado na transformação do homem e do mundo.
Conclusão
Pretendeu-se, com o
presente estudo, traçar
uma breve análise
comparativa entre a
filosofia e o simbolismo presentes no mito ou alegoria da
caverna, do filósofo grego Platão, e o ritual iniciático do grau de aprendiz
maçom do R.: E.:
A.: A.:. Para tanto, teve-se por referencial teórico nessa pesquisa a doutrina de grandes
expoentes da literatura e
filosofia
maçônicas
bem
como a exegese da filosofia platônica, a partir da interpretação dos significados encontrados no mito platônico, apresentado
mais
especificamente
no
livro VII da sua obra “A República”.
Do que se pôde concluir, após
a exposição
dos argumentos que serviram de base à referida análise, dentre
outras coisas, vê-se que é grande a
influência da filosofia platônica nos círculos especulativos e operativos da
Maçonaria.
De igual modo,
pode-se também afirmar que tal influência
precede
mesmo, na história, a fundação da ordem em sua configuração mais recente,
como produto da
modernidade franco-maçônica, visto que remonta à época
da longínqua antiguidade,
bem
como ao período medieval, onde o pensamento de
Platão foi novamente estudado.
Outrossim, infere-se
da
leitura interpretativa do texto filosófico de “A
República”, para
além
da mera
alusão à passagem aqui
citada
de sua conhecida alegoria, presente
no Livro VII, inúmeras
outras referências
(simbólicas, práticas e epistemológicas), perfeitamente alinhadas aos preceitos
ainda hoje constantes dos
ritos e ofícios da Maçonaria.
Logo, não nos
parece equívoco afirmar a existência de uma conexão
lógica, ou seja, de uma correlação de sentidos entre a filosofia
platônica e os ritos, simbolismos e a filosofia maçônicas.
Ambas as concepções mostram-se voltadas, por seu fim, ao desenvolvimento de um autogoverno humano, capaz
de permiti-lo, através da reflexão
filosófica e da
busca de si mesmo, libertar-se
das
amarras da ignorância para, enfim,
galgar novas escalas no
seu aprimoramento pessoal, moral e social, transformando-se e ajudando a transformar para melhor a realidade que o cerca.
Referências
ABRÃO, Bernardete Siqueira. História da filosofia. São Paulo: Nova Cultural,
2004.
AS RAÍZES PLATÓNICAS DO PENSAMENTO MAÇÓNICO. Disponível em:
CAMINO, Rizzardo da.
Breviário Maçônico.
6. ed. São Paulo: Madras, 2012.
CASTELANI, José.
Dicionário de termos maçônicos.
3. Ed.
Londrina: A
Trolha, 2007.
CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. 13. ed. São Paulo: Ática, 2003.
COTRIM, Gilberto. Fundamentos da filosofia: história e grandes temas. 15.
ed.
reform. e ampl.
São
Paulo: Saraiva, 2002.
D’ELIA JUNIOR,
Raymundo.
Maçonaria: 100
instruções
de aprendiz. São
Paulo: Madras, 2012.
GRANDE ORIENTE DO BRASIL. Ritual do 1º grau: rito escocês antigo e
aceito. São Paulo, 2009, p. 106.
LACERDA, Paulo E. Thomson de. Ser aprendiz. A Trolha, Londrina, n.º 308, p.
34-35, jun. 2012.
LIMA, Walter Celso de. Ensaios sobre filosofia e cultura maçônica. São
Paulo: Madras, 2012.
MICHALAK,
Stephen.
A influência
de
“A República” de Platão sobre a maçonaria e o ritual maçônico. Disponível em: <http:// http://bibliot3ca.wordpress.com/platao-e-o-ritual-maconico/ Acesso em
07/12/2012.
PLATÃO. A República. trad. Enrico Corvisieri. São Paulo: Nova Cultural,
1997. REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia: filosofia pagã antiga.
Trad. Ivo Stormiolo. São Paulo: Paulus, 2003.
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